Mulheres no espelho do teatro

Sobre COMO NOSSOS PAIS e ENTRELINHAS, filmes cujas protagonistas operam o elo entre suas vidas e uma peça clássica

No célebre final da peça “Casa de Bonecas”, Nora abandona o marido e os três filhos, disposta a encarar sua própria verdade em vez de bancar artificialmente o papel de esposa e mãe. Mas Ibsen foi instado a escrever um final alternativo, em que Nora se rende à visão das crianças. Em COMO NOSSOS PAIS, o novo filme de Laís Bodanzky, detentor dos principais prêmios em Gramado, Rosa (Maria Ribeiro) encarna uma versão contemporânea de Nora. Para que isso fique bem claro, ela até escreve uma atualização da peça clássica. A crise conjugal, geracional e profissional por que ela passa vai levá-la a optar por um dos dois finais concebidos por Ibsen.

Depois de tratar da família pelo viés do jovem viciado em drogas (“Bicho de Sete Cabeças”) e do adolescente afetado pela separação dos pais (“As Melhores Coisas do Mundo”), Laís examina agora o drama burguês pelo ponto de vista dos adultos. O tumulto se instala na vida de Rosa por todos os flancos, ao mesmo tempo, como se todos os conflitos estivessem aguardando o filme começar para chegarem ao ponto mais grave: mãe, marido, filhas, uma súbita revelação sobre sua verdadeira origem, uma ruptura no trabalho. Isso torna um pouco pesada a primeira metade do filme, quando a imagem do leite derramando no bico do gás assume uma função metafórica bastante óbvia.

Com o avançar da trama, a maturidade do casal de roteiristas Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi se impõe e confere um melhor equilíbrio. Ainda assim, são tantas as linhas convergindo para a personagem central que nem todas se resolvem a contento. São exemplos o irmão, esquecido após a segunda sequência, e mesmo o suposto pai vivido com verve por Jorge Mautner (tudo indica que ele mesmo escreveu suas falas), artista plástico nefelibático que está ali mais como alívio cômico do que como elemento de real importância dramatúrgica.

Se a natureza do drama não oferece maior originalidade, a feitura do filme tem a fluência e competência habituais de Laís Bodanzky na condução do elenco e no emprego de uma linguagem clara e sempre comunicativa. Maria Ribeiro é minuciosa na forma como exprime cada nuance de surpresa, dúvida e indignação de Rosa. Ela nos arrasta hipnoticamente para o coração dos dilemas dessa Nora moderna. E olha que nem precisava apelar para aquele plano de nudez na janela de Brasília.



De Fellini a Resnais, de Kiarostami a Spike Jonze, a confusão entre arte e realidade sempre rendeu bons argumentos para os cineastas. ENTRELINHAS mergulha nessa área pantanosa, mas não faz nada além de patinar no vazio. Em seu filme de estreia, Emília Ferreira, publicitária brasileira radicada em Nova York, põe em cena uma dramaturga e um diretor teatral estreando uma peça inspirada no triângulo amoroso Gustav Mahler-Alma Mahler-Walter Gropius. Uma série de flashbacks mostra a própria Jacqueline oscilando entre o marido velejador, um amante pintor e o diretor da peça.

A intenção de fazer um “filme de arte” leva a uma série de equívocos. O embaralhamento de fronteiras entre o que é escrito e o que é vivido transforma o roteiro numa barafunda completa. Uma fastidiosa sucessão de conversas supostamente inteligentes e elegantes desfia observações pretensiosas sobre teatro x vida, amor x trabalho, arte x dinheiro, argumentação x sedução. Imaginemos Woody Allen com humor zero e acidez nula.

Bem longe do fascínio provocado por Alma Mahler sobre os atistas do seu tempo, as inconstâncias dessa Jacqueline lembram um relógio sem ponteiros cujo pêndulo balança para lá e para cá em vão.

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