Dramédias judaicas

Sobre BYE BYE ALEMANHA e SHIVÁ – UMA SEMANA E UM DIA

Todo o grupo de sobreviventes do Holocausto retratados em BYE BYE ALEMANHA estão como o cachorro Motek, a que falta uma perna. Num campo de refugiados de Frankfurt, ocupada pelos americanos em 1946, eles estão à espera de uma chance de embarcar para os EUA ou a Palestina. Falta-lhes uma nação, um destino e um propósito. Mais imediatamente, falta-lhes dinheiro. É onde entra o esperto David (Moritz Bleibtreu) para liderar um comércio de roupas de cama, mesa e banho. Os golpes que eles aplicam aos potenciais compradores alemães são festejados como “a vingança dos judeus”.

O humor, nem sempre de efeito cômico, é ingrediente fundamental da história, pois David é simultaneamente convocado pelos americanos a explicar os privilégios obtidos no campo de concentração em troca de uma colaboração inusitada com os nazistas: contar piadas. O mirabolante e sedutor relato de David perante a oficial das forças ocupantes, em ritmo de seriado, cria uma ação paralela, colocando o rapaz entre um passado duvidoso e um presente incerto. O mesmo se dá com outros personagens, entremeando lances de comédia dramática e tragédia. A culpa pela sobrevivência depois de tantas mortes é um tema desenvolvido em filigrana no roteiro.

Realizado com eficiência mas sem inventividade por Sam Garbarski, o filme sofre principalmente com a projeção tenebrosa do Estação Botafogo 3, onde é preciso adivinhar o que se passa em muitas cenas mergulhadas no breu.



O costume judaico do shivá é o luto de uma semana pelo parente morto. Nesse período, os observantes não vão ao trabalho, os homens não se barbeiam e as mulheres não usam maquiagem, entre outros preceitos. O filme israelense SHIVÁ – UMA SEMANA E UM DIA se passa no último dia de luto e no seguinte, após a morte de um jovem. Enquanto a mãe tenta retomar sua rotina, o pai resolve se dedicar a tarefas mais prosaicas, como recuperar uma manta deixada no hospital. No seu lugar, encontra um pacote de marijuana medicinal, que vai dominar seus interesses pelas horas seguintes.

A importância dos rituais de morte para os judeus ganha um contraponto bem-humorado nessa comédia dramática de Asaph Polonsky. Em vez de lágrimas e consternação, vemos um homem tentando alienar-se pela aproximação ao mundo do filho e uma mulher lutando para se reaprumar. O modelo é o da sitcom, que procura extrair humor de situações prosaicas e interações improváveis. Um jovem vizinho da família, ex-amigo do morto e personagem largamente caricato, entra em cena para bagunçar o coreto e provocar o que o filme tem de mais tolo: a infantilização dos homens como forma de driblar o sofrimento.

Antes, porém, que o roteiro exponha suas muitas fragilidades, SHIVÁ oferece uma comicidade doce-amarga e uma saudável disposição para trocar o melodrama pelo desdém perante as obrigações da boa conduta judaica.

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