Equilíbrio e vertigem

Filme sofisticado, radical e complexo, PENDULAR coloca em cena a convivência de um casal transformada literalmente em arte. O ator Rodrigo Balzan faz um escultor de grandes volumes e Raquel Karro, preparadora corporal e ex-acrobata do Cirque du Soleil, vive uma dançarina extrema. Eles coabitam o galpão detonado de uma antiga estamparia no Centro do Rio, misto de ateliê, estúdio e moradia.

À medida que criam, amam e recebem amigos, uma série de tensões e contaminações vão povoando aquele espaço em permanente transformação. É assim que Julia Murat e seu parceiro Matias Mariani propõem uma observação/discussão dos limites possíveis entre cotidiano e ação artística. Vida em comum e preservação da individualidade. Peso e leveza. Equilíbrio e vertigem. Contiguidade e interseção.

Por mais que desperdice fitas adesivas para delimitar fronteiras e nomear obras, o escultor não é capaz de evitar o embaralhamento dos territórios e dos percursos dos dois. Isso vale para o trabalho e para o amor, pois o espaço emocional que este ocupa se rege também pelo espaço físico em que lhe é dado acontecer.

Casais artistas têm aparecido com frequência na obra recente de cineastas brasileiros. Petra Costa realizou com Lea Glob O Olmo e a Gaivota, em que um casal de atores (reais) tem sua vida e carreira afetada por uma gravidez. Muito Romântico fazia a crônica experimental da relação de Melissa Dullius e Gustavo Jahn após se mudarem para Berlim. PENDULAR se acerca dessa vizinhança por vias muito particulares. A começar pelo esvaziamento do sentido documental em troca de uma ficção carregada de verdade cênica.

Os jogos eróticos e encontros sexuais entre Raquel e Rodrigo têm um realismo e uma intimidade que parecem ir além da técnica de representação. Da mesma forma, o trabalho de Raquel com a dança e as acrobacias, muitas vezes “avançando” sobre o espaço e as obras de Rodrigo, possui a centelha autêntica da criação in loco. Daí que as suaves passagens do gesto comum para a dança ou outro tipo de performance sejam alguns dos momentos mais felizes e expressivos do filme.

Para além de uma dimensão mais verista, o enredo ficcional se expande gradativamente, envolvendo as relações do casal com outros amigos, a forma de encarar a crítica e um conflito a respeito de procriação. Como um discurso paralelo, temos ainda um engimático fio de aço estendido ao longo da velha fábrica, que remete ao passado do rapaz e, talvez, a mais uma fronteira – entre arte e loucura.

PENDULAR transpira harmonia e entendimento entre todos os que participaram de sua gestação. A fotografia da argentina Soledad Rodriguez é de uma precisão espantosa ao captar o que brota espontânea ou ensaiadamente no galpão. A montagem e todo o trabalho de som e música são de total requinte. Tantas qualidades justificam plenamente o Prêmio da Crítica Internacional recebido na mostra Panorama do Festival de Berlim e afirmam o nome de Julia Murat na linha de frente de um cinema legitimamente de invenção.

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