Deu a louca no Globo de Ouro?

Comentários sobre os vencedores do Globo de Ouro 2018 de melhor drama e melhor comédia

É surpreendente que um filme “pequeno” como TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, com seu jeito meio indie, tenha derrotado “Dunkirk” e outros favoritos para o Globo de Ouro de melhor drama. Mais ainda que tenha ganho roteiro, onde não faltam incongruências e coincidências que o fragilizam bastante. Mesmo assim, traça um quadro de sociopatia muito definidor do Meio Oeste americano.

O Missouri é um dos estados mais racistas dos EUA. Aqui esse racismo fica no subtexto, já que a ação se passa quase exclusivamente entre brancos. O que indica, aliás, a brutalidade como um dado que independe do preconceito racial, já que é a supressão do pensamento crítico e do senso de proporção na maneira como se rejeita tudo o que possa ser considerado um desvio da norma – um negro, um anão, uma menina rebelde, um rapaz branco que esteja “do lado errado”, uma mulher intempestiva.

A aparente banalidade do incidente inicial – três outdoors cobrando justiça à polícia – se desenrola numa cadeia de ódios, ameaças e vinganças, sem promessa de redenção. Mildred e Dixon (Frances McDormand e Sam Rockwell, ambos premiados no Globo de Ouro) são criaturas até certo ponto semelhantes, embora estejam em lados opostos do conflito. Ela, empenhada em identificar o homem que estuprou e matou sua filha, remorde-se de culpa e não vê limites para o que entende como justiça. Ele, mimado por uma mãe fascista, só enxerga a ultraviolência como forma de punição. Entre os dois está o chefe de polícia (Woody Harrelson), cuja personalidade se desdobra como uma surpresa trágica para o espectador.

Um dos fatores de adesão ao filme escrito e dirigido por Martin McDonagh é o humor que irrompe nas horas mais, digamos, inapropriadas. Coquetel estranho esse de comicidade, patologia e violência numa América profunda que sai aos socos com suas próprias raízes.

Não quero questionar a premiação da sempre excepcional Frances McDormand, mas em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME não vi nada que ela já não tenha feito com a mesma competência em tantos filmes. Na verdade, esse é um papel que ela deve ter desempenhado sem grande esforço. Na verdade mesmo, embora seja a detonadora da história, sua personagem nem chega a ser a principal, posto que cabe a seu antagonista, o policial psicopata vivido com gana demente por Sam Rockwell. É ele quem ocupa o maior tempo de tela e passa pelas mais graves situações. O filme chegou a ser criticado nos EUA por conta de seu personagem se encaminhar para uma suposta redenção. Aliás, uma interpretação errada do incômodo e negativista desfecho.



Se “Três Anúncios para um Crime” me surpreendeu, o vencedor do Globo de Ouro de melhor comédia me estarreceu. LADY BIRD: A HORA DE VOAR não passa de um filmeco modesto, antiquado e ineficiente em quase todos os aspectos. A história de amadurecimento de Christine “Lady Bird” numa católica e conservadora Sacramento (Califórnia) passa por todos os estereótipos do gênero “adolescente em apuros”: uma relação hostil com a mãe, a ansiedade pela primeira transa sexual, as decepções com os primeiros namorados, a amiga gordinha com quem trocar confidências, as pequenas mentiras da imaturidade, o desejo de evasão. A sensação de coisa já vista chega a ser exasperante.

Isso tudo poderia ser dramatizado de maneira pelo menos condizente com a época em que se passa: o ano de 2002, quando definitivamente, mesmo numa cidade média como Sacramento, jovens já não se comportavam como num filme de Doris Day nos anos 1950. Mas Greta Gerwick tenta nos impor esse retrato de uma suposta caretice da forma mais careta possível. Uma filmagem desprovida de imaginação, diálogos criados somente para veicular “punch lines” de baixa densidade, uma vocação irresistível para o clichê. As cenas não se acumulam dramaticamente, mas antes se sucedem como gags descosturadas que se anulam uma após a outra até o final conciliador, quando o meramente estéril se transforma em execrável.

Na simpática Saoirse Ronan, a diretora encontrou um alterego de suas personagens em filmes alheios: maleável, descontraída e falsamente irreverente. Lady Bird é um ingrediente standard da comédia light americana, a moça para quem o mundo é bastante convidativo, desde que ela leve consigo o bom e velho lar.

2 comentários sobre “Deu a louca no Globo de Ouro?

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