Três viagens ao imponderável

LUA DE JÚPITER vai ao espaço, A AMANTE à paixão interditada e A SUPERFÍCIE DA SOMBRA aos mistérios de um lugar

Com LUA DE JÚPITER os refugiados sírios saem do solo do cinema social e político para flutuarem no cinema de gênero. Literalmente.

Aryan Dashni não é um refugiado qualquer. Atingido com três tiros no tórax ao cruzar a fronteira da Sérvia com a Hungria, ele não só sobrevive impávido como é capaz de levitar e fazer a terra girar no seu eixo. Cheio de superpoderes mas um ingênuo apaixonado por batatas fritas, Aryan se vê disputado pelo sádico policial da imigração que o atingiu e por um médico atormentado pela culpa de uma cirurgia mal sucedida.

Muita ação e pitadas de ficção científica e de fabulação religiosa arrastam o filme do húngaro Kornél Mundruczó para uma montanha-russa de intrigas e intenções sem maior compromisso com a realidade tangível. Um crítico americano já o classificou como “uma carta de pedido de emprego em Hollywood”, tal é a propensão de Mundruczó para o espetáculo e o exibicionismo. Cada tomada parece sempre reservar uma surpresa, seja no comportamento da câmera, seja na direção de arte ou na atuação do elenco.

O filme se notabilizou pelos efeitos de computação que põem Aryan para flutuar sobre móveis, gentes e ruas de Budapeste. Isso dá margem a contorcionismos das locações (como fazia “A Origem”), do tempo (como em “Matrix”), ou da percepção espacial do espectador (a exemplo de “Gravidade”). Uma perseguição de carros pelas avenidas de Peste provoca piques de adrenalina. Já duas sequências de baile remetem ao campo do non sense, no qual o filme inteiro também se aninharia sem problemas.

Aos meus olhos, LUA DE JÚPITER conseguiu ser um filme tolo e despropositado, mas que ao mesmo tempo me proporcionou momentos de puro e simples prazer cinematográfico. Fez-me pensar na diferenciação que o filósofo Julio Cabrera faz entre “filmes sem cinema” e “cinema sem filme”. Nesse caso, temos pouco filme, mas um bocado de cinema.



Não é a toda hora que aparece por aqui um filme da Tunísia. Os trabalhos das diretoras Moufida Tlatli (“Os Silêncios do Palácio”, “Tempo de Espera”) e Leyla Bouzid (“Assim que Abro Meus Olhos”) são das poucas notícias que recebemos do cinema de lá. Daí ser interessante conferir A AMANTE, de Mohamed Ben Attia, agora em cartaz.

Pelos exemplos que conhecemos, o cinema tunisiano tem um viés crítico em relação aos costumes árabes que regem as políticas familiares no país. A AMANTE vai pelo mesmo caminho. Retrata uma família burguesa matriarcal que oprime um de seus filhos em todos os níveis. Hedi, um desajeitado representante de vendas da Peugeot, é controlado pela mãe, pelo chefe e pela noiva arranjada que evidentemente não ama. As gravatas, signos de formalidade e asfixia, têm um papel simbólico desde a primeira sequência.

Na semana anterior ao casamento, Hedi viaja a trabalho e conhece a atraente Rim, o bastante para colocar em xeque seu projeto de vida. Rim, na verdade, é uma mulher desencanada e normal para os padrões ocidentais. Mas, diante do círculo sufocante em que Hedi vive, ela chega como um vulcão de sensualidade e uma promessa de liberdade.

O filme se alimenta, então, de um contraste bastante óbvio entre os dois lados. Rapaz apático e submisso encontra moça liberada e cheia de energia. O resto se dá de maneira previsível, bem longe do modelo do conto de fadas. Mais que pela sua história pouco original, o filme vale pelo insight naquele mundo existencialmente claustrofóbico e pelas sutis influências de estilo dos Irmãos Dardenne, que assinam a produção.



A SUPERFÍCIE DA SOMBRA é um exemplo de equívoco muito comum em filmes do seu gênero. Não basta reunir uma porção de coisas “misteriosas” para se ter um bom filme de mistério. É preciso que os mistérios ou se esclareçam, ou, caso contrário, despertem um real interesse. Nada disso acontece no filme de Paulo Nascimento.

Leonardo Machado faz um homem taciturno, aparentemente um cantor ou produtor musical, em viagem à fronteira do Brasil com o Uruguai para visitar uma amiga enferma. Quando lá chega, não sem antes atropelar um “misterioso” animal na estrada, a mulher já faleceu. Ele é hospedado pela filha da amiga, garota igualmente “misteriosa” (Giovana Echeverría) e toma contato com os muitos “mistérios” do lugar: mulheres de negro que caminham (ou não?) pelas ruas, um sabá de prostitutas, um pequeno circo de integrantes cadavéricos, um coveiro-cantor (papel de Cesar Troncoso) e outros mais.

Esses elementos passam pela história como rascunhos de fantasmas, sem impregnar nem impressionar. O que predomina são longos diálogos (quase monólogos) pontuados por ditos igualmente “misteriosos”, como o personagem de Troncoso com sua predileção pelo prefixo de negação “des”. O fato de os personagens da fronteira se expressarem em portunhol pretende remeter à ideia de limiar. Tudo se passaria, portanto, na divisa não só entre dois países e duas línguas, mas entre realidade e imaginação, terror e erotismo, vida e morte.

A carga de intenções é demasiada para uma narrativa tão frágil. O resultado é confuso e pouco mobilizador, apesar do capricho formal de imagens e sons.

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