Dramas de pouco fôlego

Notas sobre o filme chileno CACHORROS e o francês CUSTÓDIA

Enquanto o Brasil praticamente se esquece dos horrores da ditadura – e muitos ainda a querem de volta –, na Argentina e no Chile as feridas continuam abertas. O cinema dos dois países tem colocado na tela uns tantos acertos de contas com o passado. O caso do filme chileno CACHORROS tem algo de especial, pois está centrado numa personagem ambígua e mesmo repulsiva, que não participou da época ditatorial mas lida com seus restolhos.

Mariana (Antonia Zegers) mantém um caso extra-conjugal com seu professor de equitação, mesmo  depois de saber que ele tem um currículo ligado à DINA, a polícia secreta de Pinochet, e está sendo processado por isso. Descobre também que seu pai, um rico fazendeiro e criador de cavalos, foi colaborador do regime militar e tem recursos suficientes para se safar de qualquer incriminação.

A moral de Mariana é oscilante, embora condicionada por uma forte atração pelas figuras autoritárias de policiais, militares, instrutores e do próprio marido arrogante e machista. Ela também é autoritária, filha mimada da alta burguesia, que acredita poder comprar o que quiser, como se vê no contato com um artista que quer levar para sua galeria de arte.

A diretora Marcela Said já assinou vários documentários de análise do conservadorismo no Chile, entre eles I Love Pinochet (2001), que investigava o que ainda restava de admiração pelo ditador. Em CACHORROS (Los Perros), ela procura trabalhar sutilezas de comportamento, mas esbarra nos imutáveis sorrisos cínicos de Antonia Zegers e numa evolução narrativa sem brilho.

São muitos e vagos também os subtextos simbólicos envolvendo cachorros (fidelidade, vulnerablidade?) e cavalos (soberba, teimosia?). O cartaz do filme reproduz o quadro Laura y los Perros, de Guillermo Lorca, tela velazqueana que a protagonista ganha do marido. A menina com nove cães a seus pés fica como uma charada para os cinéfilos decifradores.



A longa sequência inicial de CUSTÓDIA lança uma premissa aparentemente complexa. Diante de uma juíza, um casal e seus respectivos advogados discutem a custódia do filho de 11 anos. Ambos parecem ter suas razões, o que leva a magistrada a determinar a guarda compartilhada. Logo em seguida, veremos que as coisas não vão se resolver facilmente. Todos, inclusive o menino, mentem e manipulam em suas respectivas posições.

Mas não demora muito para o roteiro original do diretor Xavier Legrand perder o combustível inicial e patinar num limbo dramático desinteressante. A figura do pequeno Julien (Thomas Gioria, ótimo) deixa de ser o pivô do conflito entre os pais para ser uma mera vítima chorosa. Mais que isso, a complexidade anunciada se transforma em algo bem mais corriqueiro: um caso de psicopatia conjugal.

É o que leva ao desfecho brutal, de pura violência doméstica levada a um extremo. E assim CUSTÓDIA se deixa reduzir a mais uma manifestação do macho descontrolado e potencialmente destruidor. O drama intricado se converte, afinal, na simples preparação de um thriller banal.

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