Alinhando Lula Livre

Publicado originalmente na coluna de Marcelo Laffitte no jornal eletrônico Brasil 247, esse texto reúne um comentário meu e um do próprio autor, o cineasta Laffitte, sobre seu curtíssimo em vídeo “Alinhando Lula Livre”

A crítica, por Carlos Alberto Mattos

Esse pequeno vídeo [abaixo] de menos de três minutos integra diversos valores simbólicos presentes nas manifestações populares pela liberdade de Lula.

O banner que está sendo pendurado – e “alinhado” – é uma modesta obra de arte feita de retalhos e alfinetes. Expressão não do fazer artístico das elites, com seus brilhos e tecnologia. São materiais simples, que poderiam ter saído da sala de uma costureira de subúrbio, mas que por isso mesmo carregam uma legitimidade que a arte industrial não tem.

A atitude das pessoas exala espontaneidade e alegria. Ninguém está sendo pago ou obrigado a fazer aquilo. Tudo parte de um desejo puro e simples de dizer que o encarceramento do Lula – e por extensão da vontade popular – é um ato inaceitável, que ofende a nação.

Contudo, e apesar da indignação que se esconde por trás dos risos e das falas, a ação é realizada com alegria, como numa pequena festa de amigos ou num papo alegre de botequim. A sisudez e o ódio não passam por quem quer ver Lula livre.

Aquele é um ato coletivo, no qual todos colaboram de alguma maneira – seja erguendo o banner, seja orientando, sugerindo ou apenas celebrando o singelo sucesso quando a peça enfim toma seu prumo na parede.

Por fim, note-se que a tomada da câmera não tem corte. De alguma forma, isso simboliza também a persistência com que resistimos ao terror desse momento político brasileiro. Assim como a Vigília Lula Livre em Curitiba não se interrompe, entrando pelo inverno adentro, colocando a voz e o calor do povo o mais perto possível do nosso ex-presidente, também o plano-sequência de Marcelo Laffitte é contínuo e perseverante, só paralisando quando a missão está cumprida e é hora de se festejar.

Assim será com a resistência por Lula Livre.

A autocrítica, por Marcelo Laffitte

Quando ouvi pela primeira vez Pelos Bailes da Vida, um verso do Milton me impactou e se tornou um mantra para mim: todo artista tem de ir aonde o povo está. O ano era 1981, eu tinha 17 anos e acabara de chegar de Volta Redonda para estudar no Rio de Janeiro.

Já fazia um tempo, eu brincava de fazer Super-8. Meu primeiro filme é de 1979 e se chamava (não existe mais) Nervos de Aço, um documentário de 12 minutos sobre metalúrgicos da CSN ocupantes de uma área de posse urbana perseguidos pelo poder público. Naquela época, ainda não existia MST nem MTST.

Meu último filme até este momento, Alinhando Lula Livre, aconteceu no dia 28/07/2018, durante o jogo da Copa entre Brasil e Sérvia, que assisti no churrasco do “Torcedores pela Democracia”.

Fui lá com o objetivo de encontrar amigos, conhecer pessoas e construir o Festival Lula Livre. Afinal, eu sabia que ali encontraria pessoas de diferentes torcidas, diferentes partidos, diferentes orientações religiosas e sexuais, enfim, encontraria a diversidade na concordância da luta pela democracia.

Contagiado pela alegria dos presentes, gravei com meu celular várias cenas: os participantes conversando, a turma do samba, o churrasqueiro em ação, a comemoração do primeiro gol, enfim, cenas despretensiosas que provavelmente iriam para o arquivo morto.

Porém, quando revi o material bruto, me deparei com um arquivo MPEG de 2 minutos e 46 segundos que se apresentou como um filme pronto. Então meu pensamento gritou: “Como tenho sorte!”. Um diretor de cinema, além de vários atributos, precisa ter sorte, e eu estava, no momento certo e na hora certa, com meu celular no bolso.

Alinhando Lula Livre é um filme que fala do significado de se levantar a bandeira Lula Livre, movimento que agrega vários partidos, várias correntes e vários pensamentos. Ele mostra claramente que sem solidariedade, companheirismo e afeto, isto não será possível.

Este plano-sequência – jargão do cinema que define uma cena que não sofre cortes de edição – tem começo, meio e fim. Ele tem personagens empenhados em cumprir um drama. A queda da bandeira é um momento de suspense. O trecho das quatro mãos amarrando os laços que prendem a bandeira é lindo.

A tentativa do documentarista (eu, no caso) de direcionar o filme é clara no momento em que peço para alguém repetir uma frase. A minha participação no processo que é objeto do filme também é clara quando grito “Peraí, companheiro!” durante um momento de tensão do alinhamento da bandeira.

No cinema em que milito o documentarista é um partícipe. Sem ouvir, dialogar, conviver e participar da vida que pretende registrar, o ou a cineasta, seja da ficção ou do documentário, corre o risco de cair na armadilha do mainstream. Da mesma forma é a política, que deve ser horizontal e participativa, para muito além dos escritórios, dos gabinetes e dos grupos de WhatsApp e Facebook. As caravanas que Lula fez pelo país a partir dos anos 90 me mostram que eu estou certo ao seguir no caminho que trilho.

Apesar de Alinhando Lula Livre ter apenas 2 minutos e 46 segundos, e sua janela de exibição ser apenas a internet, eu me sinto realizado com este filme. Amanhã mesmo, vou gravar um DVD e pedirei registro de Certificado de Produto Brasileiro na ANCINE.

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