Dança macabra

SUSPIRIA

Como não vi o Suspiriaoriginal de Dario Argento, não posso tecer comparações. Vejo, então, o SUSPIRIA de Luca Guadagnino como uma obra em si, um thriller de horror tecnicamente competente, mas que se perde no excesso de ingredientes e de apelações grotescas.

Sem dúvida, Guadagnino (“Me Chame pelo seu Nome”) tem forte senso cinemático para exercitar-se nesse gênero. O que ele obtém com os movimentos cortantes de câmera, a montagem desorientadora e as vozes fora de quadro é uma atmosfera de inquietação quase constante. O elenco afinadíssimo ajuda a tornar plenamente suportáveis as duas horas e meia de duração.

No entanto, não é nada fácil concatenar todos os fios desenrolados. Temos os ecos da II Guerra lançando culpas sobre as consciências de 1977, ano em que se passa a história. A jovem bailarina americana que acaba de ingressar na Escola Markos de Dança em Berlim traz ecos de um passado em família fundamentalista amish de Ohio. Um velho psicanalista nutre suspeitas de que a escola é na verdade um ninho de bruxas. Enquanto isso, o grupo Baader-Meinhof lança bombas e faz sequestros em Berlim Ocidental.

A aproximação entre solidariedade feminina e bruxaria é uma ideia antiquíssima, aqui retomada de maneira superficial e espalhafatosa. O matricídio também comparece como força motriz de uma trama mais que esdrúxula.

Esses múltiplos textos se cruzam no soturno interior da escola de dança, com seus compartimentos secretos e salas indevassáveis onde coisas horríveis acontecem. Preparem-se para fogos fátuos correndo pelas paredes, sonhos macabros enviados por telepatia, bailarinas desconjuntadas por violência cinética, corpos varados por ganchos de açougue e um festival de próteses corporais que estariam melhor numa comédia de terror trash do nosso bravo Gurcius Gewdner.

Tilda Swinton, no papel de uma sinistra Madame Blanc que inadequadamente lembra Pina Bausch, diz a certo momento que pretende destruir a beleza da dança em prol de algo mais denso. Guadagnino esteve próximo de destruir, isto sim, a própria ideia de dança. SUSPIRIA se deixa assistir, mas é tão frustrante quanto o derradeiro plano que vem depois dos créditos finais.

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