Um ônibus que explora fronteiras

PARTIDA, lançamento online em 18 de junho

Posso estar exagerando, mas diria que PARTIDA, de Caco Ciocler, é um marco na relação entre documentário e fabulação. O filme que mais me impressionou nesse quesito depois de Jogo de Cena. Como se reunisse atores e personagens reais em corpos unificados, Ciocler lança um pequeno grupo num road movie em que cada papel se confunde com a realidade do intérprete. Não mais como artifício teatral, a exemplo de Moscou, mas como fio de tensão esticado entre ator e pessoa.

No horizonte, a política logo após a eleição de Jair Bolsonaro. Em dezembro de 2018, quando o fascismo anuncia sua sombra nefasta sobre o país, um ônibus parte de São Paulo em direção ao Uruguai. A bordo, o diretor, sua companheira psicanalista, a pequena equipe técnica e três atores. A atriz, preparadora de elenco e diretora teatral Georgette Fadel assume que vai se candidatar às eleições presidenciais de 2022 e pretende passar o Ano Novo ao lado de seu ídolo Pepe Mujica. Com ela viajam sua namorada (Sarah Lessa), também atriz, e o ator e empresário pecuarista Léo Steinbruch.

A proposta, bastante original, é que os atores lancem mão de suas ferramentas para grifarem o que são e pensam de verdade. Assim é que, desde a partida, Georgette vai encontrar em Léo o perfeito antagonista. Ela está arrasada pela vitória da extrema direita, enquanto ele ironiza a derrota da esquerda.

Georgette faz/é a marxista inflamada que atribui a inferiorização das mulheres e dos negros ao racismo e ao machismo estruturais da sociedade brasileira. Propondo-se candidata não por um partido, mas por uma partida, ela critica o liberalismo econômico e os limites do petismo, que chama de “social-democrata” com evidente intenção de reduzir. Assim mesmo, ao fazerem uma parada na Vigília Lula Livre, em Curitiba, ela se junta ao coro dos manifestantes, visando o que de melhor se podia fazer naquele momento.

Léo, por seu turno, adota uma postura cínica para refutar a “utopia” socialista (“que nunca deu certo”) e contestar o que vê como uma estereotipagem de classes sociais no discurso da esquerda. Georgette o acusa de não compreender o desenho maior do que ele e ela representam no espectro ideológico. A polarização faz com que as discussões entre os dois atinjam alta voltagem, num patamar em que não é mais possível distinguir a verdade de cada um da encenação. Nem seria o caso de distinguir, já que uma se alimenta da outra e ambas são verdadeiras.

O corolário desse antagonismo é a possibilidade de se manter uma relação cordial, e até mesmo afetuosa, com aqueles de quem discordamos frontalmente. Eis um exercício muito difícil nos dias de hoje, mas em que, de alguma forma, deveríamos perseverar. Falo isso pensando em mim mesmo.

Quando Georgette decide conversar com o motorista – que visivelmente não participa do jogo – ganha-se um flagrante do pensamento naïf brasileiro, então atraído para o discurso anticorrupção e antipolítica que elegeu Bolsonaro. O próprio Caco Ciocler cai na berlinda quando Georgette questiona a relação do ator com a Globo. Georgette tampouco escapa da tormenta de opiniões, sendo acusada de radicalismo e agressividade.

A meio caminho, o técnico de som Vasco Pimentel, venerando profissional do cinema português, deixa um depoimento impactante sobre o Brasil, país que, segundo ele, não era para existir. “Isso aqui era para ser uma empresa extrativista. Esse povo, que eu tanto amo, é feito de excedentários, não era para existir”. O raciocínio, que Vasco contextualiza de modo interessante, ecoa atualmente no curta República, que Grace Passô acaba de realizar para o Programa IMS Convida. Ali sua personagem acorda no meio da noite com a notícia de que o Brasil não existe, não passa de um sonho de alguém que está para acordar a qualquer momento (veja aqui). Por coincidência ou não, Georgette Fadel já trabalhou com Grace, e a parceira desta em República é Wilssa Esser, que faz câmera adicional em PARTIDA.

A viagem suscita, ainda, rusgas entre Georgette e Sarah, mais uma vez confundindo as fronteiras entre os registros. Em alguns momentos, essas mesmas fronteiras viram assunto de conversas, criando outras dobras no código. O filme-processo se contrói, em grande parte, abertamente, com parte das instruções da direção e dos impasses da representação sendo discutidos diante das câmeras.

Toda a produção se articula dentro do ônibus ou em quartos de hotel, que funcionam como estúdio, bastidores e cenografia principal. O baixíssimo orçamento não contou com patrocínio nem recursos incentivados, o que só liberou a equipe para uma aventura ímpar. As premissas básicas (a viagem, a suposta candidatura e o debate político em vários níveis) são conduzidas com imensa empatia, muito humor e um senso permanente de dramaturgia que não deixa buracos. Com esse projeto de risco e inteligência, Caco Ciocler confirma a aptidão já demonstrada em Esse Viver Ninguém me Tira e vai muito além.

À medida que o ônibus avança em direção ao sul, avançam também as questões e cria-se uma expectativa quanto ao desfecho sonhado – o encontro com Mujica. A passagem da fronteira com o Uruguai é comemorada com uma hilária e esfuziante rodada de maconha. Se Mujica é alcançado ou não, convém deixar o espectador descobrir. Mas posso adiantar que há muito tempo o ato final de um filme não me deixava tão emocionado e recompensado.

Naquela noite de Ano Novo de 2018, o Brasil entrava num tempo de trevas, mas uma feliz equipe de cinema finalizava seu trabalho com uma catarse inesquecível.

PARTIDA poderá ser visto a partir de 18 de junho nas plataformas Now, Vivo Play, Oi Play, Petra Belas Artes à la Carte, Filme Filme e Looke.

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