O Anjo e o Bispo

Ela já havia aparecido discretamente como esposa coadjuvante em documentários sobre o autor de “Grande Sertão: Veredas”. Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa ganha agora status de protagonista em ESSE VIVER NINGUÉM ME TIRA, um amável perfil dirigido por Caco Ciocler. De origem judaica, Caco compartilha a gratidão que muitos judeus devem a Aracy pelo trabalho clandestino e arriscadíssimo que ela desempenhou no consulado brasileiro em Hamburgo, em fins dos anos 1930, desobedecendo um acordo de Vargas com a Alemanha e fornecendo vistos de permanência para refugiados do nazismo. O diretor trabalha dentro dessa perspectiva ao incluir-se na cena como pesquisador, permitindo-se mesmo alguns excessos como filmar-se rezando no Muro das Lamentações. Mas o empenho é sincero e comovente, sobretudo quando Caco assume a narração e coloca sua voz cálida a serviço da memória de Aracy, seja lendo entradas do diário dela ou fazendo especulações carinhosas sobre sua vida. Ele garimpa arquivos particulares, entrevista filhos de sobreviventes e vai ao memorial Yad Vashem colher a confirmação do reconhecimento oficial de Israel ao “Anjo de Hamburgo”, uma gói filha de mãe alemã. Embora a relação com Rosa fique em segundo plano, sublinha-se a inspiração da companheira sobre a obra-prima do escritor. Na aplicação com que enfatizam a coragem de Aracy, os participantes do filme desvirtuam uma informação: separada do primeiro marido, aos 25 anos, ela não partiu para a Alemanha num impulso meramente aventuresco. Foi viver com uma tia e procurar emprego de intérprete ou tradutora.

Baseado no livro de Luciana Hidalgo, O SENHOR DO LABIRINTO sofre os percalços de se passar da pesquisa para a cena sem uma proposta cinematográfica sólida. A começar pelo próprio acervo de Artur Bispo do Rosário, reconstruído por bordadeiras sergipanas e visto no filme como pouco mais que cenografia. A conexão entre o colecionismo obsessivo de Bispo e suas fantasias de esquizofrênico é feita de maneira muito superficial, assim como a câmera passeia sobre as peças sem se deter em quase nada. Além disso, faltou imaginação audiovisual numa narrativa sobre criação e loucura. À exceção do início e do final, quando perspectivas vertiginosas e uma edição delirante tentam dar conta da subjetividade nos surtos, o resto é resolvido em planos-sequência estáticos, que dependem excessivamente da performance dos atores. Felizmente, esse setor está bem defendido, sobretudo pela dupla Flávio Bauraqui (Bispo) e Irandhir Santos (o bom guarda Wanderley), mesmo quando a maquiagem de velhos põe em risco a sobriedade de suas atuações. A trilha musical de Egberto Gismonti fornece um comentário adocicado e pesaroso que não combina com o universo retratado. Por fim, uma estrutura episódica impede que o espectador penetre em alguma camada mais profunda da mentalidade do artista e de sua trajetória da doença à arte.
Não faço considerações específicas sobre a fotografia e o som porque vi o filme em mais uma projeção lastimável da sala 3 do Espaço Itaú de Cinema.

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