Os “Bonnie & Clyde negros”

TIME na Amazon Prime

Chama-se “americana” qualquer conjunto de materiais culturais tipicamente relativos aos EUA. O documentário Time enquadra-se nessa classificação por veicular uma série de valores característicos: a crença no sonho americano, a ideia de sucesso como meta, a confiança na resiliência e na fé religiosa como forma de superar entraves da vida. Mas Time é uma “americana” dos novos tempos, calcada na afirmação dos negros e na potência da comunicação audiovisual.

À frente dessa saga familiar está a escritora, ativista e empreendedora social Fox Rich. Em fins dos anos 1990, ela e o marido Robert Richardson envolveram-se num assalto frustrado a banco, visando levantar fundos para abrir uma loja de roupas hip hop em Nova Orleans. Foram presos enquanto Fox estava grávida de gêmeos. Ficaram conhecidos como os “Black Bonnie and Clyde”. Ela saiu em 2002, ele foi condenado a 60 anos. Fox passou, então, a dedicar-se a criar os filhos sem pai e lutar pela redução da pena do marido. Assim progrediu socialmente, carreando a experiência de sua igreja para palestras de motivação e denúncia do sistema penal americano, que considera uma extensão do jugo escravocrata sobre os negros. “O sucesso é a melhor vingança”, insiste ela nos momentos em que precisa afastar o desânimo.

A diretora Garret Bradley criou um aparato cinematográfico baseado na intimidade e na emoção. O filme incorpora muitas cenas gravadas pela própria Fox ao longo dos 20 anos em que esperou pela libertação de Robert. Ela registrava cenas da família para um dia mostrar ao marido e cobrir o tempo que passaram sem ele (mantendo um boneco de papelão com a foto dele em tamanho natural dentro de casa). Desde os primeiros momentos, Fox nos conquista com seu carisma, sua inteligência e seu engajamento emocional nas falas que gravava para a posteridade familiar.

A palavra “time” designa não apenas tempo (ou sua passagem), mas também o cumprimento de uma pena. Através desses fragmentos domésticos – que lembram o cinema de Charles Burnett (Matador de Ovelhas) – testemunhamos o empenho de uma mulher poderosa em dar a volta por cima, encaminhar seus filhos para carreiras nobres e desenvolver seu próprio potencial, decerto herdado de uma mãe igualmente inspiradora. As mudanças na aparência sugerem um ideal, se não de embranquecimento, de inserção em modelos tidos como de “gente bem sucedida”.

As imagens em preto e branco oscilam entre o realismo doméstico e o lirismo, este alimentado por uma trilha musical ora enternecedora, ora épica. Muito do envolvimento proporcionado pelo documentário vem de uma montagem criativa, que entrelaça os vários tempos não em ordem cronológica, mas numa lógica de tonalidade e atmosfera.

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