AS QUATRO FILHAS DE OLFA
Pessoas substitutas têm sido assunto com certa frequência em filmes recentes. Lembremo-nos de Alpes, de Yorgos Lanthimos, ficção na qual profissionais alugam-se como substitutos de pessoas recém-falecidas para ajudar os parentes a vivenciarem o luto num arremedo de representação. Werner Herzog, em Uma História de Família, lidou com uma empresa japonesa real que aluga pessoas para vários tipos de situação. As Quatro Filhas de Olfa (Les Filles d’Olfa) traz esse tema para o campo do documentário e, ao mesmo tempo, da representação.
Olfa Hamrouni é uma mãe divorciada de quatro filhas numa Tunísia agitada pela Revolução de Jasmin e a disputa de influência política entre civis laicos e radicais islâmicos. Em 2016, as duas filhas mais velhas saíram de casa, mudaram de país e nunca mais deram notícia. Olfa temia que as mais novas tomassem o mesmo rumo, o que acabou não acontecendo. O caso virou notícia e inspirou a cineasta Kaouther Ben Hania a propor à família uma espécie de psicodrama cinematográfico.
As atrizes Ichrak Matar e Nour Karoui foram chamadas para viver os papéis de Ghofrane e Rahma, as desaparecidas, num misto de conversas e reencenações do relacionamento entre mãe, filhas e irmãs. A atriz Hind Sabri reveza-se com a Olfa real como a mãe, enquanto Majd Mastoura interpreta todos os homens que interagiram com elas, sejam marido, pai, padrasto ou policial.
A intenção, naturalmente, é assumir o lugar das filhas/irmãs ausentes apenas para efeito de uma dramatização. No entanto, é inevitável que o simulacro vá redespertar emoções mal adormecidas e mesmo provocar a enunciação de verdades nunca assumidas. Isso envolve histórias de violência parental, abusos sexuais e conflitos de geração.
Boa parte do documentário é ocupada por trocas entre as seis personagens, que oscilam entre a rememoração dolorosa e uma efusiva camaradagem. O carisma das mulheres se impõe e nos conquista inapelavelmente. Aos poucos, porém, o tópico dos hábitos religiosos ganha corpo no filme, na medida em que as moças se colocam em relação ao uso dos véus e à ameaça da sharia (a draconiana lei islâmica). É nessa trilha que, afinal, tomaremos conhecimento do que realmente se passou com Rahma e Ghofrane, ou seja, um caso de repercussão internacional.
As Quatro Filhas de Olfa é o segundo filme de Kaouther Ben Hania (e da Tunísia) indicado ao Oscar. O anterior, o ótimo O Homem que Vendeu sua Pele, assim como A Bela e os Cães, também elaborava criativamente sobre um caso verídico. Dessa vez, trabalhando no risco do jogo de cena, a cineasta incorpora um pouco da preparação das atrizes e da quarta parede para trazer à tona um drama familiar imbricado com os apelos do fanatismo religioso no mundo árabe.
>> As Quatro Filhas de Olfa está nos cinemas.
Confira minhas resenhas dos outros indicados ao Oscar de longa documentário:
20 Dias de Mariupol
A Memória Infinita
Bobi Wine, the People’s President
To Kill a Tiger


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