Kafka no palco com som, filme e fúria

Serão apenas mais três sábados. É muito pouco para um espetáculo tão arrebatador quanto Comunicado a uma Academia, em cartaz no Espaço Intrépida Trupe, dentro da Fundição Progresso.

O conto homônimo de Kafka também está sendo levado ao palco simultaneamente por Alejandro Jodorowsky no México. Mas a montagem brasileira, dirigida por Cavi Borges e Patricia Niedermeier, tem um ingrediente desestabilizador a mais: o macaco que vira homem é interpretado por Patricia.

O conto é mais uma metamorfose de Kafka. Vejo também como uma fábula de aceleração darwiniana ou uma inversão do célebre espetáculo de variedades da mulher-gorila.

Depois de alvejado e capturado por uma empresa de caça, um macaco se vê enjaulado a caminho de algum destino de exploração. Resolve então se transformar em humano para fugir ao cativeiro e sobreviver. Diante de uma plateia de acadêmicos, ele conta sua história.

Kafka ironiza os processos de “humanização” como amestramento. O macaco Pedro, o Vermelho não imita (não macaqueia) os homens, mas sim adere a sua lógica como única saída. Despreza o conceito humano de liberdade e visa apenas chegar “à formação média de um europeu”.

No palco e na tela, Cavi e Patricia vão além. Valendo-se mais uma vez do modelo de peça-filme, eles usam projeções de trechos de Stanley Kubrick (2001, Nascido para Matar), Alan Parker (The Wall) e outros para levar esse aprendizado de Pedro às raias da destruição. Quanto mais o homem aprende, mais arruína. A alegoria é estarrecedora.

Estarrecedora também porque assim o faz Patricia com sua performance visceral e magnetizante. Que eu me lembre, é sua maior atuação desde sempre. Enche o texto de vida com mil inflexões de voz e pausas expressivas. A hibridez daquele ser entre as posturas simiesca e humana é representada minuciosamente no corpo e na ação física, tributária do teatro de Meyerhold. Os interlúdios de dança feroz transmitem uma pulsação que atinge o público quase fisicamente. A participação da Intrépida Trupe na direção de movimentos e na utilização de práticas circenses projeta Patrícia para os ares, à maneira dos macacos.

A escolha desse texto para uma montagem como essa é o primeiro acerto do casal Cavídeo. A partir dali, é a precisão da sinestesia palco-tela-músicas que faz de Comunicado a uma Academia um programa obrigatório.

>> A venda de ingressos é feita na própria Fundição Progresso aos sábados, a partir das 18h30. O espetáculo começa às 19h30. Até 16 de maio. Duração de aproximadamente 50 minutos.

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