O ANO EM QUE O FREVO NÃO FOI PRA RUA
Em fevereiro de 2021, Recife e Olinda estavam tristes. Devido à pandemia da Covid 19, as prefeituras decretaram que não haveria Carnaval. E Recife e Olinda sem Carnaval em fevereiro é como o Rio de Janeiro com as praias fechadas em dezembro. Ficou instituído um carnaval digital, com as agremiações promovendo lives para minorar a tristeza da ausência nas ruas. Era “o carnaval do fim do mundo”.
Com imagens em preto e branco, e um saxofone tocando triste na trilha sonora, Bruno Mazzoco e Mariana Soares captaram a melancolia de carnavalescos e personagens míticos da folia pernambucana. Nas ruas vazias de Olinda ou do centro de Recife, eles e elas sublimavam a festa interditada em depoimentos emocionados e conformados com a necessidade de proteger a vida.
Lá estão o porta-estandarte do Galo da Madrugada, o carregador do Homem da Meia-Noite, a matriarca do Maracatu Nação, o maestro do Orquestrão, o Velho do Cariri Olindense, o padre-folião com a batina coberta de glitter. Alguns mais, outros menos performáticos, lamentam a situação e lançam o pensamento para o ano seguinte, quando o Carnaval haveria de voltar.
Mas não foi bem assim. Em 2022, as pedras e o asfalto ainda não seriam sacudidos pelo frevo. Só em 2023 a alegria – e, no filme, as cores – voltaria às ruas. As imagens celebram efusivamente esse retorno.
Embora fale de uma interrupção, O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua deixa patente a riqueza cultural e mítica do Carnaval pernambucano, com suas ressonâncias ancestrais e seu sincretismo entre o religioso e o profano. O documentário tem qualidade audiovisual e simpatia de sobra até que as falas dos participantes se estendam além do necessário e se tornem, aqui e ali, irrelevantes ou repetitivas. Seria interessante saber, por exemplo, como foi aquele carnaval vivido na internet. Faz falta também um pouco mais de contextualização do impacto causado pelo não-Carnaval em outros aspectos da cidade para além dos representantes “oficiais” de blocos, agremiações e “troças” (grupos informais de foliões).
>> O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua está nos cinemas.




