Bala na cabeça

CASO 137

A violência e a impunidade policiais não são “privilégio” das comunidades e periferias brasileiras. Nem da repressão a negros e imigrantes nos EUA. Em 2018, durante as manifestações dos “coletes amarelos” na França, muitos relatos do gênero chegaram à mídia. Caso 137 (Dossier 137) dramatiza um episódio fictício, mas capaz de iluminar o corporativismo muito comum entre os ditos mantenedores da ordem.

Não vem ao caso discutir o papel ou os métodos dos gillets jaunes, que protestavam por melhoria dos serviços públicos, redução de impostos, aumento de salários e aperfeiçoamento da democracia. No filme, um manifestante pacífico é atingido por uma bala de borracha na cabeça, o que lhe traz sequelas irreversíveis. Uma investigação interna é conduzida pela corregedora Stéphanie (Léa Drucker, premiada com o César de melhor atriz por esse trabalho). Ao saber que a vítima e sua família são da pequena cidade de onde ela vem, Stéphanie desenvolve um interesse especial pelo “caso 137” e encontra evidências incontestáveis de abuso policial.

Daí em diante, o que vemos é um sistema que atua para se proteger, ao mesmo tempo que o ódio à polícia se alastra pela sociedade. Os investigados pertencem à BRI, uma tropa de elite da polícia francesa que se julga acima da lei. Stéphanie pretende levar o caso às últimas consequências, mesmo enfrentando a crítica dos colegas, que de certa forma a acusam de trair a República em momento de grande perturbação social. Ademais, sua frágil ligação com a família do manifestante pode colocar em risco sua isenção.

O diretor e corroteirista Dominik Moll adota um estilo próximo do documentário, focando nos procedimentos  da Corregedoria, em depoimentos e na dissecação de mapas e vídeos das manifestações (mesclando gravações reais e ficcionais). Com isso, a primeira metade do filme se arrasta um pouco nas tramitações burocráticas. As coisas melhoram a partir da descoberta de uma testemunha fundamental que hesita em colaborar.

Caso 137 ressalta a falta de confiança dos cidadãos na instituição policial e os vícios que alimentam o arbítrio sob o pretexto de fazer cumprir a lei. Não é um grande filme, mas mostra bem os limites na apuração das exorbitâncias dos agentes da lei e da ordem.

>> Caso 137 está nos cinemas.

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