Piratas da TV

PAPAGAIOS

Eis um filme brasileiro original. Da imaginação de Humberto Carrão e do diretor Douglas Soares surgiu uma espécie de conto moral sobre a fome de visibilidade no mundo contemporâneo. É bem verdade que essa síndrome se manifesta hoje mais nas redes sociais do que na televisão, como aparece em Papagaios, mas a história não deixa de ter sua potência.

Gero Camilo e Ruan Aguiar estão perfeitos nos papéis de Tunico, o papagaio de pirata mais famoso do Rio, e Beto, seu obscuro aprendiz. O pano de fundo é Curicica, bairro da Zona Oeste do Rio, onde os relatos de criminalidade rivalizam com uma rica vida popular e com o apelo da Escola de Samba União do Parque Curicica.

A inquietação começa já no prólogo altamente atmosférico num parque de diversões, quando logo salta aos olhos a qualidade da fotografia de Guilherme Tostes e da montagem de Allan Ribeiro. Ali conhecemos Beto em atitude que já prenuncia o perfil de um psicopata. Ele vai seguir e se aproximar de Tunico, solitário caçador de fama que sabe habilmente se colocar na frente das câmeras de TV em reportagens de rua, velórios de gente famosa, etc. Depois de um incidente violento num bar, Tunico vai acolher Beto como um filho em sua casa e treiná-lo nos ofícios de corretor de imóveis e papagaio de pirata. A cena coreográfica do treinamento/disputa diante do espelho é um primor.

A partir daí, em quatro capítulos muito bem intitulados e tendo como background o noticiário da TV, Papagaios nos leva numa viagem intrigante pelos desvãos da sedução, da amizade, da confiança e do desejo de celebridade a qualquer custo. O cantor Leo Jaime tem uma participação crucial na trama, assim como os personagens vividos por Ernesto Piccolo e Roney Villela. A preparação do elenco por Tati Muniz merece ser destacada.

Em seu segundo longa como diretor solo, Douglas Soares demonstra grande segurança na condução de uma narrativa lacunar, que trabalha bem as ambiguidades das relações entre vários personagens e deixa áreas cinzentas para o espectador colorir com suas próprias interpretações. O perfil claro e patético de Tunico, com seus terninhos, sua peruca e seu papagaio de estimação, contrasta com o delineamento difuso de Beto, inclusive quanto a sua vida sexual.

Sem estardalhaço, nem apelo a qualquer tipo de banalidade, Papagaios é uma densa e tensa fábula sobre patologias de uma cidade em transe permanente.

>> Papagaios está nos cinemas.

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