Física e sedução

SANTOSCÓPIO = DUMONTAGEM + SANTOS DUMONT PRÉ-CINEASTA?
de Carlos Adriano

Não chega a um minuto a duração do filmete recomposto com os cartões de mutoscópio que Carlos Adriano encontrou no Museu Paulista. Esse pequeno-grande achado mostra Santos Dumont expondo, com elegância de gestos, os croquis e as ideias para seu balão dirigível ao esportista e engenheiro inglês Charles Rolls (um dos futuros fundadores da Rolls-Royce). Peça central da tese de doutorado de Adriano e do seu longa Santos Dumont Pré-cineasta? (veja abaixo), a breve cena foi revirada pelo avesso no curta Santoscópio = Dumontagem. Aqui o cineasta-arqueólogo explora o potencial lúdico, poético e metafórico daqueles poucos segundos filmados.

Aplicando diversos tipos de manipulação digital, Adriano sublinha no ritual da cena o que ela contém de sedução (SD certamente tentava “vender” o seu invento), mas também o que expressa da Física e da Mecânica. Os movimentos dos eixos e do voo são evocados pela edição, assim como as condições químicas do material cinematográfico vêm à tona no tratamento das imagens. Mais experimental e obsessivamente concentrado que o longa, o curta o complementa como um brinquedo manual pode complementar o prazer de uma boa leitura.       

Ver, voar, volver

A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levaram Carlos Adriano a articular, no longa Santos Dumont Pré-cineasta?,  uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.

Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.

Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.

Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.

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