Cinema direto à brasileira

Em 1967, o documentarista Sérgio Muniz publicou este texto no primeiro número da revista Mirante das Artes, editada em São paulo por Pietro Maria Bardi, e também na revista Cine Cubano. Sua argumentação em prol de um cinema direto de características brasileiras dá uma boa ideia de como a discussão do documentário integrava plenamente um pensamento sobre cinema brasileiro na época. Agradeço a Sérgio o privilégio de trazê-lo de volta no blog.

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CINEMA DIRETO – ANOTAÇÕES

Idealmente o cineasta que faz cinema direto “vê” e “escuta” tudo.

Ainda que isso seja um conceito um tanto geral, ê realmente um ponto de partida que possibilita constatar que o cinema direto verifica como, na realidade, as pessoas agem, pensam e falam.

Mas, diferenciando-se dos cineastas que utilizam a técnica do “direto” (frequentemente chamado, ainda que erroneamente, de cinema verdade) nos Estados Unidos, no Canadá e na França, o cineasta brasileiro ao fazer o cinema direto não se satisfaz nem concorda em só documentar tal ou qual realidade, dela ser simples espectador ou esperar que dita realidade se explique sozinha.

Para o cineasta brasileiro que utiliza a técnica do “direto”, há que existir uma visão critica dos conflitos e contradições que estão na realidade que seu filme apresenta.

Seja qual for o nível em que a realidade for surpreendida, documentada pelo cineasta brasileiro que faz cinema direto, ela será desintegrada, examinada e posteriormente reintegrada pelo autor do filme ou pelo seu  público.

De maneira mais sistemática essa visão do cinema direto pode ser observada em quatro documentários produzidos entre setembro de 1964 e março de 1965. São eles: Memória do Cangaço, “Viramundo, Subterrâneos do Futebol” e “Nossa Escola de Samba”, dirigidos respectivamente por Paulo Gil Soares, Geraldo Sarno, Maurice Capovilla e Manuel Horácio Gimenez.

Geraldo Sarno (à direita) conversa com um personagem de “Viramundo”

Alguns críticos franceses mais entusiastas chegam mesmo a dizer que o futuro do cinema brasileiro em geral e do tão célebre cinema novo depende em grande parte do sucesso das experiências do “direto” (conforme afirma Louis MarcorelIes em sua comunicação ao XII Colóquio Internacional sobre o filme Etnográfico e Sociológico, realizado em Florença, de 10 a 12 de fevereiro de 1966).

O que gera tal repercussão do “direto” brasileiro é exatamente a visão crítica dos problemas do nosso país, a franqueza com que as estruturas arcaicas e/ou atuais são examinadas.

Alguns reparos, talvez, pudessem ser feitos por algum técnico demasiado exigente, no que diz respeito a alguns detalhes de fotografia, enquadramento, duração de entrevistas, problemas de som, etc.

Concordamos que devemos ter sempre presente a preocupação com a qualidade. Mas não há de ser por isso que ficaremos amarrados ao que para nós é um instrumento, um meio de chegar até a realidade e à sua melhor compreensão. E nunca um método rígido que para muitos é um fim em si.

No caso brasileiro, o “direto” assume a forma de pesquisa filmada, sem nunca perder, porém, sua especificidade de cinema, pois não estamos fazendo sociologia ou antropologia, mas cinema.

Ainda assim, o “direto” é um elemento de constatação, de colocação de problemas, de tomada de consciência desses mesmos problemas que se colocam e são colocados numa sociedade subdesenvolvida como a nossa. É o método que se apresenta, no campo do cinema, de conhecermos (ao mesmo tempo com a perspectiva de transformar) nossa realidade.

Maurice Capovilla entrevista Pelé em “Subterrâneos do Futebol”

O “direto” brasileiro é antes de tudo falar do Brasil e de sua provável transformação.

Sofrendo enormes dificuldades de ordem técnica que ainda persistem, o “direto” já ultrapassou todavia o limite da experiência. É hoje em dia a maneira de aproximação aos mais diversos dos nossos problemas.

Aproximação essa que não foi conseguida até o momento por cineastas estrangeiros (notadamente Pierre Kast) que estiveram por estas bandas usando a técnica do “direto”, aproveitando temas brasileiros, tentando dizer coisas com jeitão de brasileiro (mas geralmente caindo no mais terrível “folclore” ou na mais extrema incompreensão do que seja Brasil), esperando que a realidade por si só se explique.

É uma tentativa falida por sua própria natureza, que é oportunista e paternalista ao mesmo tempo.

A resposta que nos diz que o caminho do “direto” brasileiro é o certo nos é dada pela aceitação nacional e internacional da critica de cinema, pelos inúmeros prêmios.

Aceitação e premiação que foram obtidas pela provocante força de debate, de intromissão na realidade, de penetrante análise dos citados filmes, e não por certos “tics” preciosistas – que podemos mesmo já chamar de acadêmicos – de certos cultores do “direto”.

Um depoimento pode tomar um longo tempo cinematográfico, se isso for necessário para que o momento típico ou representativo de um assunto seja compreendido, mesmo que alguns americanos, franceses ou canadenses digam que a entrevista (longa ou curta) está superada no que diz respeito ao “direto”.

O que está em questão é o contacto com a realidade. E se a forma, em determinada situação, for a longa entrevista, longa ela será. E se o assunto só pode ser filmado em preto e branco (por limitação de produção ou por “necessidade” do tema), assim o será, pois não é só porque a televisão europeia agora produza documentários somente em cores que nós iremos tratar, indiscriminadamente, nossos assuntos na base do colorido.

Com a acuidade da visão crítica associada à acuidade de “ver” e “escutar” tudo – seletivamente – estaremos pondo a descoberto a realidade geral que nos cerca ao mesmo tempo que tentamos tornar transparentes e claras as sutilezas e contradições do ser humano em conflito com o meio e consigo mesmo, e, o que é que mais nos interessa, estaremos conhecendo o homem brasileiro.

Sérgio Muniz é cineasta e professor de cinema. Dirigiu os docs Roda & Outras Estórias, De Raízes & Rezas, Andiamo in’Merica, Beste, rastejador s.m., Cheiro/Gosto – O Provador de Café e outros integrantes da Caravana Farkas, além dos menos conhecidos O Povo do Velho Pedro, Você Também Pode Dar um Presunto Legal e o longa Amizade. Leia os Faróis de Sérgio aqui.

 

Um comentário sobre “Cinema direto à brasileira

  1. Mensagem enviada pelo cineasta Evaldo Mocarzel: “Querido Mestre Sérgio, li recentemente o seu texto “Cinema direto à brasileira” publicado no blog do Carlinhos e gostei muito! Não havia lido até então. Muito interessante a sua visão do “cinema direto”, ou melhor, a sua recriação dessa vertente observacional do filme documentário com uma pegada brasileirissimamente telúrica. Está mais para “kinopravda”, ou melhor, “cinéma vérité” à brasileira, na medida em que não se quer desaparecer na locação para observar o mundo como uma mosquinha na parede, mas entendo e também compartilho dessa sofreguidão em levar para o cinema, de forma “direta”, um Brasil telúrico que não chega nem perto das folclóricas e por vezes tão oportunistas reportagens televisivas. Abraço grande!

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