Pílulas 42

Vi LAURA já há algum tempo. Primeiro como DOC-TV, um dos mais elogiados e premiados da época áurea do programa. Depois como longa na Semana dos Realizadores de 2011. Laura é uma personagem e tanto, fruto da era do culto à celebridade e da permisividade do fake. Podia fazer parte da gang do Bling Ring, mas vai além. O sotaque castelhano, a vivência brasileira e a ambientação americana – e por outro lado, o contraste entre o interior do quarto dela e o glamour da vida externa em que tenta se infiltrar – criam um prisma intrincado através do qual somos levados a (des)conhecer Laura. Pode soar superficial esse perfil on the move da personagem. Melhor do que tentar capturar Laura é, portanto, acompanhar a relação entre ela e o talentoso diretor Fellipe Barbosa (Beijo de Sal). É dos atritos e do entendimento entre os dois que o filme se nutre. Mais que um filme sobre Laura, LAURA é sobre a questão de filmar Laura: quando fazê-lo, como fazê-lo, por que fazê-lo, até onde fazê-lo.

FLA X FLU é um doc-provocação. Segue os princípios do cinema-verdade, ou seja, de que a situação da filmagem e suas condições catalisam elementos que vão criar uma verdade que existe por causa da cena, nascida da cena. Renato Terra usa as camisas dos times adversários para trazer a rivalidade para dentro do espaço da entrevista. Faz com que o filme respire o seu próprio tema. Como em “Uma Noite em 67”, ele é feliz em escolher bem e com rigor as ferramentas do documentário. Não temos uma história nem uma análise compenetrada do “clássico das multidões”. Tudo vem dos depoimentos apaixonados, irônicos ou provocativos de torcedores e ex-jogadores emblemáticos. A montagem de Jordana Berg mimetiza uma “guerra” bem-humorada, uma troca de ofensas no fundo amorosas de gente que se vê reciprocamente como a contraparte exata de si. Assistir ao filme com sala cheia resulta numa experiência e tanto, com as torcidas respondendo a cada estímulo. O filme agora tem uma sessão diárias às 17h20 no Espaço Itaú de Botafogo. 

OS SUSPEITOS tem suas qualidades na direção, na interpretação dos atores, nos tempos da narrativa etc. Mas seu tão elogiado “suspense do começo ao fim” não me siderou como eu esperava. Achei tudo bastante previsível até os 40 minutos finais, quando a coisa degringola para o freaky, e o naturalismo cru de antes cede lugar aos truques de best-seller. Denis Villeneuve tem uma tendência a extremar os lances dramáticos, o que funcionava muito bem em “Incêndios”, uma tragédia humana, mas aqui, no gênero policial, me pareceu inflado como balão de gás.

Um documentário e uma ficção sobre SERRA PELADA, lançados juntos, criam um interessante espelhamento de representações daquele fenômeno. A ficção criada por Heitor Dahlia e Vera Egito talvez seja até mais etnográfica do que o doc de Victor Lopes, apesar de todas as liberdades tomadas. A ficção permite condensar melhor aspectos que, no doc, ficam dependendo de materiais de arquivo e relatos orais. No doc, o funcionamento subterrâneo do garimpo (donos de barranco, rivalidades etc) não ganha muito destaque, enquanto na ficção é a presença do estado que é minimizada. A ficção é um western passado em terra sem lei e faz aproximações ao estilo narrativo de “Cidade de Deus”, embora sem tanta eficácia e com uma decupagem/montagem que elimina o impacto de algumas cenas e fracassa muitas vezes na orientação espacial do espectador. O doc, por sua vez, conversa de longe com o clássico “O País de São Saruê”, de Vladimir Carvalho, na crônica dos sonhos de abundância e na mitificação de uma terra que pode gerar frutos indefinidamente. Em suas qualidades respectivas, em suas sobreposições de informação e no diálogo oblíquo que mantêm, esses dois filmes se complementam e se valorizam mutuamente. Em matéria de personagem, que me desculpem os de Juliano Cazarré, Julio Andrade e Wagner Moura, mas ninguém se ombreia aos ex-garimpeiros reais e muito menos ao mefistofélico Sebastião Curió que domina o documentário.

Um filme espacial intimista, um filme intimista com muita ação. Assim é GRAVIDADE, história de duas pessoas perdidas no espaço entre a individualidade mais irredutível e o vazio mais incomensurável. O filme de Alfonso Cuarón tem alto poder sugestivo com seus enormes “planos-sequências” flutuantes, que nos comunicam toda a imponderabilidade da estratosfera, e ao mesmo tempo sua conexão muito próxima com os personagens, principalmente pelo som. No entanto, qualquer paralelo com 2001 é uma heresia, algo como colocar Nietzsche ao lado de Martha Medeiros. GRAVIDADE parte das situações de solidão e solidariedade para falar de superação, resiliência, esses motores de praxe no universo da auto-ajuda. É até onde a filosofia pode alcançar hoje no cinema comercial americano sem cair no gueto intelectual nem conversar somente com adolescentes matrixados. Depois de ver Sandra Bullock lutar contra três elementos e tocar finalmente o quarto, a terra, percebi que esta é uma nova e aérea versão de “Náufrago”.

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