Bienal de Veneza: três obsessões

A 55ª Bienal de Arte de Veneza termina seus cinco meses de exibição no próximo dia 24. Da maratona que fiz nos meus cinco dias de permanência na cidade no mês passado, venho selecionando algumas fotos e suas respectivas lembranças para publicar aqui e ali. Não é simples dar conta de tudo o que se vê nos diversos locais da exposição, entre deslumbramento e desapontamento. Escolhi para esse post três elementos que vi se repetirem em obras de autores e países diversos, mas cuja recorrência parece querer dizer alguma coisa sobre o estado da arte contemporânea: dinheiro, escombros e livros.

(Clique em cada foto para vê-la em tamanho maior)

1. DINHEIRO

No Pavilhão de Veneza, dedicado este ano à soft art com materiais têxteis, um vídeo mostra uma modelo que vai sendo progressivamente “vestida” com cédulas que caem do alto sobre ela.

O dinheiro, aparentemente, não constitui mais um vilão, mas antes o grande motor do ciclo da vida, como fica claro no pavilhão performático da Rússia, de autoria de Vadim Zakharov. Ali, só as mulheres, protegidas por guarda-chuvas, podem entrar nesse pátio onde caem chuvas de moedas (acima). Elas são convidadas a recolher as pratinhas e entregar a um monitor, com o direito de ficar com uma para si. As moedas recolhidas são direcionadas através de um elevador para o topo do pavilhão, de onde despencarão novamente mais tarde. As visitantes, portanto, são quem alimenta a máquina. Mulheres e dinheiro fazem o mundo girar. A inspiração vem de Dânae, que foi fecundada por Zeus sob a forma de uma chuva de ouro.

Num cantinho quase escondido do Museu Correr, como parte das exibições paralelas da Bienal, pouca gente repara na valise do malaio H. H. Lim. Dela saem notas de dinheiro de países do terceiro mundo, num comentário sobre o baixo valor econômico, em contrapartida a um suposto alto valor nas trocas culturais. É o tipo de arte conceitual que dá seu recado em voz baixa, quase despercebida.

O pavilhão da Grécia é também inteiramente dedicado ao dinheiro. Três vídeos exibem uma trama multiplot que põe em contato uma idosa colecionadora de arte que faz ikebanas com cédulas, um jovem imigrante africano que cata metais pela cidade e um jornalista que fotografa grafites com seu tabletNuma antesala, vários painéis de textos contam histórias em que o valor do dinheiro é contestado. Entre elas, uma descrição dos bancos comunitários de desenvolvimento brasileiros (abaixo).

2. ESCOMBROS

A fascinação por escombros dá as caras em diferentes contextos, numa espécie de comentário sobre a desconstrução que caracteriza tantas obras de arte contemporânea. 

Esse detalhe de escultura da inglesa Phyllida Barlow ilustra um trabalho que se esmera em evitar toda plasticidade estetizante e chegar a um resultado que pareça bruto e acidental.

O pavilhão da Espanha é literalmente preenchido por montanhas de destroços de prédios demolidos, serragem, vidro, limalha de ferro e cinzas. A artista Lara Almercegui é arqueóloga e procura fazer uma ponte entre seus dois ofícios. Os escombros, reconvertidos em obra artística, querem falar de ruínas urbanas e ciclos históricos simbolizados por aqueles materiais.

Israel, por sua vez, está apresentando o pavilhão mais fascinante de toda a Bienal, na minha humilde opinião de leigo. No centro do piso inferior, logo à entrada, o visitante se depara com um buraco no chão e um telão reproduzindo o mesmo local com um músico em ação. Quando subimos as escadas, encontramos outros telões mostrando um grupo de escultores saindo de algum ponto de Israel, entrando por dentro da terra e saindo no piso do pavilhão em Veneza através do tal buraco. Ali eles esculpem uma série de bustos, fazem performances vocais, que por sua vez estão expostos e são ouvidas, respectivamente, no mesmo espaço. É um trabalho sugestivo que conecta poeticamente tempos e espaços, o virtual e o físico, o esforço de uma expedição e a energia de um ato criador.

Ruínas e um buraco aparecem ainda nesta foto (abaixo) de Josef Koudelka, parte do pavilhão do Vaticano, que pela primeira vez se faz representar como país na Bienal. A série de fotos de Koudelka fala justamente de “descriação”, a ação violenta do homem contra os elementos.

Para completar o painel desta obsessão, um frame de vídeo do pavilhão grego:

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3. LIVROS

Uma constante curiosa transpareceu nos trabalhos de esculturas com livros em três países muito diferentes.

O brasileiro Odires Mlászho expôs seus Livros Alterados (acima), em que a função precípua do volume desaparece, dando lugar à forma escultural. Um método simples (intercalar e envergar folhas) para um resultado intrigante.

Abaixo, os superlivros do indonésio Titarubi. Suas milhares de folhas são em branco. Os sete livros estão dispostos sobre carteiras colegiais em madeira queimada, numa alusão ao tempo que o homem dedica a sua formação.

Por fim, um dos incríveis bustos do sul-africano Wim Botha, cada qual feito com livros de uma mesma espécie.

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