Pílulas 47

Pelo teaser de NINFOMANÍACA Volume 2, que passa nos créditos finais do Volume 1, é ali que o pau vai comer. Este primeiro capítulo parece uma mera apresentação da personagem: suas descobertas infantis da sensualidade, as primeiras aventuras de “pescaria” sexual, seu elogio do sexo como jogo e sua campanha contra o amor romântico. Não sabemos ainda como ela foi parar toda machucada naquele pátio em que a história começa. Nem pude entender como Lars Von Trier foi parar nessa patuscada que recria o que havia de pior nos seus filmes anteriores. Retire-se a provocação de “Os Idiotas”, a dramaticidade de “Ondas do Destino” e a perversidade de “Anticristo”, e fique-se com o que restar. No relato de Joe (Charlotte Gainsbourg) a seu bom samaritano (Stellan Skarsgard) e nos comentários deste reinam as metáforas vulgares e os diálogos de solenidade intelectual ridícula. Nas peripécias da Joe jovem (a inexpressiva Stacy Martin) o que se vê é a mais completa falta de imaginação audiovisual e um tom que, sem pretender ser erótico nem irônico, é apenas anódino e banal. Von Trier parece ter a intenção de tirar um sarro da sua própria reputação de provocador, jogando banalidade atrás de banalidade no colo do público para ver até onde ele “compra”. A mim, que admiro tantos filmes seus, ficou a impressão de uma cafajestice mal disfarçada, um gesto de desprezo pela inteligência de seus fãs.

Hirokazu Kore-eda mostra em PAIS E FILHOS por que é herdeiro de Yasujiro Ozu, se não no estilo, ao menos no trato das rachaduras e da união familiar. É justo ver algumas questões de filmes de Ozu “atualizadas” em trabalhos como “Ninguém Pode Saber”, “Still Walking”, “O Que Eu Mais Desejo” e neste novo filme, detentor do Prêmio do Júri em Cannes. Bebês trocados na maternidade já renderam outros argumentos (e até um episódio do recente brasileiro “O Que se Move”), mas aqui o tema se desdobra numa rede de sentimentos e relações que tocam particularmente cada um dos quatro personagens principais, além de alguns coadjuvantes. Assim, a discussão central (o que legitima uma relação pai-filho: o sangue, o afeto, o tempo de convivência?) acaba se integrando numa rede maior. Num drama tão denso sobre ressentimento, culpa, rejeição, fixação e diferenças de classe, é notável como Kore-eda ainda insere humor e certa leveza plenamente integrados à dramaturgia, sem parecer mero alívio cômico. As atuações infantis são memoráveis, e na perfeita interação das crianças com o elenco adulto reside a força comovedora do filme. Mesmo quando não cria obras “transcendentes” como “Maborosi” e “Depois da Vida”, Kore-eda consegue tocar em pontos inefáveis da condição humana. A meu ver, PAIS E FILHOS é o seu melhor filme desde “Ninguém Pode Saber”.

No clássico curta de Fernando Birri TIRE DIE, crianças pobres do sertão argentino correm junto à linha férrea para que os passageiros do trem lhes atirem moedas. Em LA JAULA DE ORO temos essa cena invertida: os imigrantes clandestinos passam no trem e recebem frutas jogadas pela população pobre de um lugar. É uma das cenas mais lindas do cinema latino-americano recente. LA JAULA DE ORO é muito dramático e impactante, mas sem nenhuma exploração barata do tema da imigração. Os três adolescentes protagonistas, preparados por Fátima Toledo, estão admiráveis nessa odisseia entre a Guatemala, o México e os EUA, seguindo a rota da exploração dos imigrantes, da crueldade das máfias de fronteira e da própria condição pessoal deles. A passagem do preconceito étnico à tolerância e à solidariedade faz o eixo humano do filme em meio às adversidades do contexto. É um railroad-movie que descortina uma situação menos conhecida: os algozes de fronteira não são apenas os policiais do país mais rico, mas também os saqueadores e exploradores de trabalho escravo que campeiam do lado pobre mesmo.

O último filme que vi em 2013 foi O QUARTETO, de Yaron Zilberman. Embora cercado pela sombra do melodrama, o filme mantém-se sóbrio e afinado, acabando por se tornar bastante absorvente. É um estudo sobre o que a música exige de seus intérpretes para que estes alcancem um nível de excelência no trabalho em grupo. Para manter sua harmonia e qualidade, o famoso quarteto de cordas do título tem que saber lidar com a perda, a degenerescência física, o instinto de competição e os impulsos amorosos. Parte importante do bom resultado se deve ao casting perfeito, com Christopher Walken e Philip Seymour-Hoffman liderando a partitura. Ao contrário de outros filmes sobre música clássica, esse não dissolve o assunto em pieguices sobre a nobreza da arte. Um dos quartetos tardios de Beethoven, peça central do roteiro e referência do título original “A Late Quartet”, é mais que um enfeite espetaculoso ou fetiche erudito. É estrutural ao longo do filme, o que faz toda a diferença.

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