Cinema e lugares incomuns

(Artigo publicado originalmente na revista Filme Cultura 60, jul/ago/set-2013)

Tanto quanto produto de circulação cada vez mais global, o cinema constitui também um fenômeno intensamente local do ponto de vista da recepção. Se por um lado as condições de mercado moldam a oferta de filmes nas salas de cada região, por outro o público interage de maneiras variadas com o que chega ao seu alcance. Assim, o universal e o pontual se articulam na dinâmica da exibição cinematográfica.

Três livros lançados este ano (leia-se em 2012) jogaram luzes sobre a relação entre cinema e cidades. Cada um a sua maneira, Cinematographo em Nictheroy – História das salas de cinema de Niterói, de Rafael de Luna Freire (Niterói Livros, RJ), Cinema japonês na Liberdade, de Alexandre Kishimoto (Estação Liberdade, SP) e Cinema – Apontamentos para uma história, de Sérgio Moriconi (Instituto Terceiro Setor, DF) procuram esmiuçar o cinema não como o lugar-comum da obra de reprodução indiferenciada, mas como manifestação das particularidades de consumo das respectivas localidades. Eles vêm se somar à magra bibliografia brasileira publicada sobre o mercado exibidor. 

Cinematographo em Nictheroy é um trabalho de pesquisador hardcore, minuciosamente costurado através de notícias de jornais e referências de artigos, livros e dissertações. Rafael de Luna Freire investigou a história das salas de cinema de sua cidade natal, no que não poderia fugir de um paralelo constante com o que acontecia simultaneamente no outro lado da Baía de Guanabara, até 1960 a capital federal. Niterói desde sempre teve ares de província tranquila, cidade-dormitório do Rio de Janeiro. No início do século XX, era conhecida por suas praias calmas, escolas, internatos, casas de saúde e de repouso. O cinema chegava como índice de modernização, ainda que inicialmente exibido em barracões infectos e calorentos.

Rafael articula a evolução do circuito cinematográfico com o desenvolvimento do núcleo urbano da cidade e suas degradações, as mudanças nos costumes da população e a concorrência de outras formas de entretenimento – sendo o cinema o único regular e o mais popular. O progresso que tocou Niterói ao longo do século foi o mesmo que fez construir e destruir cinemas até a situação atual, em que desapareceram completamente os cinemas de bairro e as 11 salas da cidade se enfurnam em dois shopping centers na região central.

Os estabelecimentos ganham uma espécie de biografia, com referências dos sucessivos proprietários, mudanças de endereço, detalhes arquitetônicos e de mobiliário. Surgem aí algumas façanhas niteroienses como ter sido a terceira cidade brasileira a exibir filmes sonoros em 1929 e dispor em 1954 de uma das maiores salas de exibição do país, o Cine São Jorge com seus 2.800 lugares. A história da exibição no Brasil pode também ser contada através desse microcosmo da “cidade-sorriso”: dos cinematógrafos de barracão e salões improvisados aos cinemas de quintal e aos prédios art nouveau; da tela de pano ao panorâmico Cinemascope, o 3D, os drive-ins, cineclubes, salas de galeria e multiplexes.

Para além de todos os pormenores técnicos e urbanísticos, ressalta em Cinematographo Nictheroy a ideia do cinema como fator de sociabilidade e de equiparação simbólica para um município que, apesar de ser a capital fluminense, está fadado a viver à sombra da grande cidade vizinha. Disso estava imbuído o cronista que fez a seguinte descrição em 1931, transcrita no livro: “Limousines à porta dos cines. Jeunes filles et enfants gatés. Perfumes. Sorrisos sóbrios e aristocráticos. Cenas fortuitas de flirts. Início da season… Um sucesso para a invicta, a temporada de inverno de 1931 nos cinemas desta metrópole miniatura”.

As projeções do cinema no imaginário de uma comunidade são o foco principal de interesse de Cinema japonês na Liberdade. Alexandre Kishimoto adota um olhar mais próximo do antropólogo para analisar os vínculos da colônia japonesa e demais admiradores do cinema nipônico de São Paulo com as salas do bairro da Liberdade, que reinaram entre 1948 e 1988. Para os imigrantes e nikkeis (descendentes), ir ao cinema era ir – ou voltar – ao Japão. Os filmes funcionavam como uma reafirmação de identidade no exílio e como manutenção de laços com a pátria distante, sem falar no ritual de divertimento familiar tão ao gosto dos japoneses de outros tempos.

Citações de livros e textos acadêmicos são usadas extensivamente, mas o material mais original são as memórias colhidas pelo autor junto a antigos frequentadores, trabalhadores, técnicos e empresários ligados a cinemas memoráveis como o Niterói, o Tokyo, o Nippon e o Joia. Esses depoimentos, gravados em vídeo, poderão dar origem a um futuro documentário de Kishimoto sobre o assunto. Descontada alguma redundância entre o conteúdo dessas “falas” e sua apresentação no corpo do texto, o dispositivo traz um colorido especial que condiz com as intenções etnográficas do pesquisador. Por elas se pode perceber as diferentes reações dos cinéfilos aos diversos gêneros praticados pelo cinema japonês, sobretudo no período áureo dos estúdios (anos 1950 e 60).

Para além da mera observação intramuros, o livro coleta impressões de não nikkeis célebres que amavam e/ou deixavam-se influenciar pelo cinema vindo do Japão. São os casos de Carlos Reichenbach, Alfredo Sternheim, Jean-Claude Bernardet e outros. A “descoberta” pela crítica paulista do diretor Eizo Sugawa, menos admirado no Japão do que aqui, é um dos episódios que mereceram destaque. O autor coteja também as lembranças de japoneses e nikkeis com as análises de especialistas como Donald Richie e o crítico Tadao Sato.      

Numa estrutura um tanto descontínua, Kishimoto extrapola bastante essa moldura de estudo e examina, entre outras coisas, o sistema de produção de cinema no Japão em certos períodos; a reputação (lá como cá) de nomes de relevo como Kurosawa, Mizoguchi, Imai e Uchida; e a eclosão de sentimentos antijaponeses por ocasião da II Guerra Mundial. Nesse aspecto, vale ressaltar como o cinema japonês teria ajudado na reconciliação entre vitoristas e derrotistas (paraconflito abordado no filme Corações sujos, de Vicente Amorim). A teoria dos fluxos culturais é convocada por Kishimoto para aludir, por exemplo, ao surgimento de uma pequena comunidade de brasileiros orientalizados nos anos 1960. Para essa turma, os cinemas da Liberdade eram apenas mais um ingrediente de um modo de vida voltado para a cultura e os afetos japoneses.

O caso do livro Cinema – Apontamentos para uma história é um pouco diferente, já que Sérgio Moriconi se dispõe a cobrir, em tom de crônica histórica, a trajetória do cinema produzido em Brasília. A especificidade geográfica, porém, nos autoriza a incluí-lo nesta resenha, já que o cinema vai ter contribuição importante no projeto brasiliense de revalorização do Brasil interiorano, além de laboratório para a construção de novas identidades.

O mercado exibidor teve na cidade nova suas características muito especiais. O livro faz uma preciosa descrição dos cinerregistros pioneiros da dupla José e Sálvio Silva durante a construção da capital, assim como um relato saboroso dos primeiros cinemas com exibição ao ar livre. Reza a lenda que Bernardo Sayão, o mítico desbravador do Centro-Oeste, gostava de tirar uma soneca nos cinemas pioneiros do Núcleo Bandeirantes, que atendiam à massa candanga empregada na edificação da cidade.

Entre os personagens que despontam como marcos da construção de uma cultura cinematográfica em Brasília está o exibidor e cineclubista José Damata, que durante a ditadura militar entrou em pânico ao ganhar do adido cultural da União Soviética dois projetores de 35 mm de marca russa. Damata tem no livro importância similar à do professor e mentor Rogério Costa Rodrigues e do documentarista Vladimir Carvalho.

Esses três livros chamam indiretamente nossa atenção para as grandes transformações que estão se processando nos nexos entre o cinema e seus lugares. A disseminação de telas no nosso cotidiano, a quebra dos velhos paradigmas de distribuição e exibição e mesmo a crescente indiferenciação entre suportes vão afirmando padrões de consumo bastante distintos dos que vigoraram ao longo do século passado. Daí essas histórias de Niterói, Liberdade e Brasília estarem talvez no limiar de se transformarem em pura História.   

Um comentário sobre “Cinema e lugares incomuns

  1. Li somente Cinema Japonês na Liberdade, a abordagem sobre os lugares incomuns, os cines Niteroi, Joia, Nippon e Nikatsu, onde frequentavam nikkeis e não nikkeis (eu também, no período de 1963 a 1971 mais ou menos). O autor, sendo antropólogo, investiga o passado do cinema japonês no Brasil, desde que chegou em meados de 1926, passando pela época da repressão do governo de Getúlio Vargas, as diversidades rm gêneros e estilos desse cinema e sua influência na obra dos cineastas brasileiros. Livro gostoso de se ler, fiquei sabendo dos critérios e análises que os japoneses teciam a respeito do seu cinema, que o Kurosawa era una persona non grata, era muito ocidentalizado. Na verdade o Kurosawa mostra uma sociedade onde nem tudo é perfeito. Foi uma boa leitura,o livro representou para mim um elo de ligação de um passado muito bom com o presente muito rico, devido a diversidade de filmes nacionais e estrangeiros que temos acesso.

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