Entre mortos e sobreviventes

ALEMÃO ilustra bem um dilema do cinema brasileiro atual. Pesquisa recentemente encomendada pela Riofilme detectou que o filme de ação é o gênero de maior preferência entre os espectadores médios do Rio de Janeiro, dando margem a uma orientação nos financiamentos da empresa. Não quero discutir aqui o fato de um agente público de fomento guiar-se por expectativas estritas de mercado. Mas, tomando ALEMÃO como exemplo, será que atende a esses requisitos? O filme de José Eduardo Belmonte, um diretor autoral que parece ter optado pelos produtos de mercado, mobiliza clichês do favela-movie para contar a história de cinco policiais infiltrados na megafavela do Alemão e que se encontram sitiados pelos traficantes durante a ocupação do complexo pela UPP em 2010. Eles estão cercados não só por bandidos, mas também por relações familiares e românticas numa equação delicada. O filme começa confuso e progride esclarecendo o caso em meio a tiros e muita gritaria. Poderia ser um filhote de “Cães de Aluguel”, mas falta a verve de Tarantino. ALEMÃO quer ser “documental” quando deveria ser abertamente fantasioso. Quer ser dramático onde deveria ser distanciadamente crítico. Mas esqueçam essas duas últimas frases. Não me cabe especular o que o filme deveria ser. Mlehor dizer que ele parece um arremedo de filme de ação, com muita gente apontando as armas reciprocamente e um clima de exasperação que tenta sugerir a urgência da situação, mas está longe de conseguir porque não se cria a relação entre o que se passa na comunidade e o huis-clos dos infiltrados. Belmonte, como sempre, tem pulso na direção, mas o roteiro é plano demais para seu estilo sofisticado. A impressão que fica é de um filme que procura inventariar os traços de um gênero, mas em que falta a matéria-prima para elevá-lo acima do mero inventário. No fundo, parece um bando de crianças brincando de polícia e bandido.  

MATARAM MEU IRMÃO, o doc que ganhou a competição nacional do É Tudo Verdade 2013 e entra hoje em cartaz no Rio, é a dolorida confissão de uma família atormentada pela violência e dispersa por várias partes do país. Ao investigar os ecos da morte do seu irmão Rafael em 2001, numa disputa em torno de veículo roubado, o diretor Cristiano Burlan não se furta a expor a dor de sua família, valendo-se de um veículo, o cinema, que talvez o tenha retirado de um destino semelhante. Afinal, seu pai e sua mãe morreram tragicamente, um irmão estava preso em Cuiabá quando da realização do filme e outro já havia passado pela prisão. À exceção de um ou dois momentos em que mostra bastidores da filmagem, sem grande ganho para o filme, e de alguns toques narrativos “pessoais” à la Kiko Goifman, Cristiano se mantém exemplarmente sóbrio, colhendo depoimentos longos e emocionados. O que eles acabam por compor é um retrato de destinos individuais que não conseguem escapar da cadeia de crime, tráfico, vícios e fatalidade numa área especialmente conflagrada da periferia paulista. O telefonema que abre o filme, a respeito da localização dos restos mortais de Rafael, já informa sobre a impotência da instituição famíliar para dar conta da sorte de seus membros, estejam eles vivos ou mortos.

Pela primeira vez na vida tomei um porre somente com água. Foi vendo ATÉ O FIM, um dos filmes mais sem-noção a que assisti nos últimos tempos. O diretor e roteirista J. C. Shandor tenta uma estranha combinação de espetáculo e antiespetáculo, na medida em que suscita expectativas e as dilui em cenas morosas e sem brilho. O velho Redford empenha sua relativa fragilidade corporal numa atuação macambúzia, que só se sustenta pela montagem hábil para tapar buracos a todo instante. Temos um homem tentando sobreviver no mar após um acidente com seu barco. Ele enfrenta as fúrias da natureza e sucessivamente perde o barco, a comunicação, a água potável e até o bote salva-vidas. Isso não é um spoiler, pois o título original já entrega tudo: “All is Lost”. Ele só não perde a paciência, o olhar tranquilo e o rosto escanhoado depois de oito dias à deriva. A trilha sonora, pavorosa, sugere que o personagem “Our man” já morreu desde o início, embora isso só vá ser definido no último plano do filme. Eventuais paralelos com “Gravidade”, “Náufrago” e “As Aventuras de Pi” só fazem atestar a gratuidade desse projeto tedioso, que, a meu ver, não vale como experiência sensorial nem como estudo de personalidade.

3 comentários sobre “Entre mortos e sobreviventes

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. “ALEMÃO” é, nada mais nada menos, isso que vc expôs aqui. (Sua lucidez, meu caro Carlos, só parece ser ameaçada, mesmo, pelas produções do Allien atualmente empregado pelas prefeituras de cidades turísticas etc…)

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