Dois Jarmusch e um Amelio

limitesJim Jarmusch estava em plena forma em OS LIMITES DO CONTROLE, filme de 2009 lançado por aqui somente em DVD. O costa-marfinense Isaach De Bankolé faz um homem caladão, meio robótico, que viaja pela Espanha no encalço de uma missão misteriosa. Ele recebe mensagens cifradas em caixas de fósforos e é guiado por charadas filosóficas, artísticas e científicas, além de quadros de grandes pintores espanhóis. Jarmusch parece inspirar-se nas tramas de Hitchcock, integrando ingredientes típicos de cada lugar, mas esvaziando completamente as relações de causalidade e a dramatização de conflitos. Resulta uma espécie de thriller pós-moderno, no qual, em lugar da ação, temos referências, repetições e diferenças para marcar a enigmática rotina do protagonista.
A veia de esteta do diretor se apura com a fotografia primorosa de Christopher Doyle e pequenas experimentações de luz e montagem. Um clima de irrealidade envolve tudo, das locações estilizadas à performance do elenco de “atravessadores” estelares: Tilda Swinton de peruca branca, Bill Murray de peruca loura, além de Gael García Bernal, John Hurt e a voluptuosa Paz de la Huerta. No final, cumprida a missão do rapaz e diante da Gran Sábana de Antoni Tápies, a gente se sente um pouco como diz a personagem de Tilda: “Os melhores filmes são como sonhos. Você nunca tem certeza de que os viu”.

Em prosseguimento a meu miniciclo Jim Jarmusch recente, vi ONLY LOVERS LEFT ALIVE, do ano passado. Como Neil Jordan em “Byzantium” (2012), Jarmusch surfa também na onda dos neovampiros contemporâneos. A indefectível Tilda Swinton e Tom Hiddleston fazem Adam e Eve, um casal apaixonado há pelo menos cinco séculos. Ela mora em Tanger (Marrocos), ele em Detroit, USA. Conversam pelo skype, reveem os tempos passados em vídeos do Youtube e, como gente civilizada que são, não atacam humanos diretamente, mas compram sangue de hospitais e tomam em taças delicadas – ou na forma de picolés. Não aprovam em nada o comportamento estabanado da irmã mais nova de Eve, Ava (Mia Wasikowska), que ainda se alimenta à maneira antiga.
Claro que é uma comédia, mas à moda Jarmusch: melancólica, romântica… e pós-moderna. A intertextualidade está presente através de livros, personagens e apelidos. Quando vai ao hospital fazer suas comprinhas, por exemplo, Adam troca a roupa de roqueiro por um disfarce de médico, Dr. Fausto. Eve, por sua vez, é amiga de Christopher Marlowe (John Hurt), o dramaturgo do século XVI que até hoje se arrasta pelos cafés de Tanger vestindo um colete de 1586. Adam, aliás, anda deprimido com o estado do mundo. Odeia quem vampiriza os outros, como Shakespeare que vampirizou Marlowe, os roqueiros de hoje que vampirizam suas músicas e até os ladrões de energia que roubam através de “gatos”. A cenografia combina peças de várias épocas e explora coisas típicas de Tanger e Detroit. Tudo é milimetricamente pensado e estilizado, como sempre na obra do diretor. E propõe o mesmo diálogo com seu fãs, o que para os demais pode soar apenas exótico e cifrado. Mas que é uma delícia de ver e ouvir, lá isso é.

L’INTREPIDO (2013) é um filme menor de Gianni Amelio, diretor habituado a tratar questões contemporâneas dentro de uma tradição de poesia e consciência social do cinema italiano. Aqui temos principalmente um homem e uma cidade. Antonio Pane (vivido por Antonio Albanese) é um desempregado que vive de substituir trabalhadores em dias de folga ou doença. Num dia ele pode estar colando cartazes na rua, no outro pode estar carregando peixe no mercado ou entregando pizza. A cidade é uma Milão distante dos postais, feita de canteiros de obras e enormes prédios modernos. Nessa Milão erma e indiferente, o único milagre que se vê é o sorriso sempre terno e otimista de Antonio contra toda adversidade. Seus biscates sofrem contratempos, a mulher o abandonou por um empreendedor de ética duvidosa, o filho tem ataques de pânico antes de subir ao palco com seu saxofone e a jovem amiga bipolar que ele tenta ajudar não tem o melhor dos destinos.
Antonio é o eterno substituto, um personagem patético bem característico de certa dramaturgia italiana, mas não chega a lembrar Carlitos, como Amelio pretendia e parte da crítica italiana comprou a comparação. O filme é moroso, um tanto apático como seu protagonista e não consegue estabelecer relações palpáveis entre os personagens. Destaque para a escolha de locações e algumas belas ideias cênicas, como a sapataria de fachada em que Antonio descobre, numa metonímia, o vazio da Itália em crise econômica. De resto, alguém precisa dizer ao autor dos diálogos que brasileiros não são conhecidos por tocar merengues.

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