Pazienza investiga o sentido das imagens

O Rio tem recebido curiosas mostras de documentaristas praticamente desconhecidos por aqui. No mês passado foi o francês Nicolas Klotz com seus filmes sobre grupos socialmente excluídos. Desta terça a domingo (11 a 16 de março), na mesma Caixa Cultural, será a vez de o ítalo-belga Claudio Pazienza apresentar pessoalmente seus ensaios documentais marcados pela introspecção e o questionamento filosófico do ato de olhar para as imagens.

O método do diretor é basicamente digressivo. Ele costuma partir de um objeto, um item de consumo ou um fato de sua vida pessoal e, através de uma série de associações (ou desassociações) de ideias, vai se interrogando sobre questões mais amplas. Exemplo disso é Cenas de Caça ao Javali, de 2007. Não, não se trata de um filme etnográfico à la Jean Rouch, muito embora haja de fato cenas de caça ao javali. O ponto de partida é a morte recente do seu pai, que é filmado no caixão numa sequência comovente em que Pazienza afaga seu rosto numa derradeira imagem de pai e filho juntos.

A morte dos entes queridos contamina as imagens, diz o diretor a certa altura. É preciso sair delas. Cenas de Caça ganha, então, foros de exorcismo das imagens de morte. Pazienza utiliza o “fuzil” cronofotográfico de Etienne-Jules Marey como ponte metafórica entre a caçada ao animal e a caça às imagens. Uma caçada ao javali é sucessivamente apresentada em ação física e com recursos de animação. Pazienza quer investigar o que é possível fazer com as imagens quando elas já não são suficientes para dar conta do mundo. É preciso, então, dar nomes às imagens. Ou superá-las através do toque físico, do tato. A imagem digital não se compara à experiência de tocar com os dedos.

Os três filmes que conheço de Claudio Pazienza são conduzidos por uma narração dele próprio, às vezes tratando a si mesmo na terceira pessoa. Lembra às vezes o estilo sonambúlico de Godard como narrador de seus filmes. É essa voz que costura e dá sentido às imagens, apesar de esse sentido nem sempre se estabelecer claramente para o espectador. É frequente também o uso de pequenas performances, deambulações, conversas e eventuais entrevistas editadas de maneira não convencional.

Exercícios de Desaparecimento (2011), um de seus filmes mais festejados, foi também motivado por uma perda familiar. Pazienza conta não ter reconhecido os traços da mãe quando a viu no caixão. Daí ele evolui para uma densa reflexão sobre memória, esquecimento e luto em conversas e viagens com seu amigo e professor de Filosofia, Jacques Sojcher. A estrutura tem um quê de diário pessoal. Claude e Jacques tomam aulas de sapateado, colhem e colecionam água da chuva classificando em garrafas por dia (foto no alto), descrevem em microfones tudo o que veem em viagens por Israel, China e um país africano. Tudo parece bastante solto, ainda que coerente com a proposta da obra do diretor, que é de filmar, nomear e perguntar-se sempre. Como os calígrafos que escrevem ideogramas com água nas calçadas da China para logo se tornarem invisíveis, Exercícios de Desaparecimento parece aspirar a destino semelhante: o conjunto desaparece rapidamente da nossa mente, mas a lembrança de algumas imagens forte permanece.

O filme mais, digamos, objetivo e político dos três que já vi é Quadro com Quedas, de 1997. Neste, o leit motiv é o quadro “A Queda de Ícaro”, de Pieter Brueghel. Falando consigo próprio na terceira pessoa, Pazienza cria uma falsa alteridade para investigar a percepção dos belgas sobre si próprios. Ele leva reproduções do quadro a populares, políticos, estudiosos da arte e a seus próprios pais, inquirindo-os sobre detalhes da tela, como o camponês em primeiro plano e o corpo caído de Ícaro, semi-submerso no mar à direita. Não parece interessado em análises precisas nem interpretações “poéticas” do quadro, mas em navegar livremente pelas ideias dos outros e relacioná-las com a atualidade da Bélgica na época (greves, protestos, desemprego, tensões separatistas). Um exemplo: diante de uma reprodução, o então primeiro-ministro Jean-Luc Dehaene faz uma análise do caráter modesto e dedicado do povo belga. 

Apesar de calcado na mitologia greco-romana e de ter como cenário uma paisagem imaginária, o quadro de Brueghel costuma ser visto pelos belgas como uma representação mitológica do seu país. Para Claudio Pazienza, é um pretexto para pensar sobre pontos de vista e seleção do olhar. Que Bélgica cada um vê? O que é ser feliz na Bélgica? Com um humor inesperado para quem viu os outros dois filmes, ele se questiona mais uma vez sobre o que dizem as imagens – sejam elas de um quadro, dos telejornais ou as que emergem de fontes estatísticas. A digressão chega até a fronteira da astronomia: por que ainda vemos hoje certas estrelas que já se extinguiram há muito tempo?

À parte qualquer trocadilho, os filmes de Claudio Pazienza requerem uma certa paciência do espectador para deixar suas ruminações ecoarem na apreensão de cada um. O retorno cíclico dos temas-chave e a árvore de sentidos que vai se abrindo pausadamente nos trazem uma forma pessoal e peculiar de construir documentários.       

Pazienza vai ministrar uma master class na sexta-feira (14), às 19h. Visite a página da mostra no Facebook e o site do cineasta.

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