Sobreviventes do “Cabra”

Novo filme revela mais um dado trágico na história da família de Elizabeth Teixeira

Os extras do DVD de Cabra Marcado para Morrer, recém-lançado pelo Instituto Moreira Salles, compreendem uma faixa comentada (por Coutinho, Eduardo Escorel e por mim) e dois documentários, os últimos trabalhos finalizados por Coutinho ainda em vida. Esses filmes a respeito de sobreviventes chegam a público num momento em que seu autor não está mais entre nós.

Um deles é Sobreviventes de Galileia, de 27 minutos. Em janeiro do ano passado, Coutinho voltava a dois personagens do Cabra, o lavrador Cícero e o agora comerciante João José. Eles recordam-se do filme e “atualizam” suas histórias pessoais. Cícero mostra cartas que recebeu de Coutinho nos anos 1980 e João José (o que guardou o livro de Malaparte depois de 1964) conta de suas viagens por Cuba (“para ajudar Fidel e aprender a dar tiro”), França e ex-Tchecoslováquia. Tudo se resume a um rápido encontro entre velhos amigos para botar a conversa em dia.

Mais ambicioso é o projeto do outro doc, A Família de Elizabeth Teixeira, de 65 minutos, realizado também em 2013. A atitude de Coutinho continua a mesma: chegar à porta da casa, entrar para conversar e mostrar fotos. Mas aqui não só as histórias são mais dramáticas, como Coutinho parecia interessado em estimular uma pacificação entre Dona Elizabeth e seus filhos ainda distantes. No Rio, ele se encontra com Marta e Marinês. Esta última tem o relato mais impressionante, cheio de revelações bombásticas. Numa delas, aponta o próprio avô, pai de D. Elizabeth, como mandante do assassinato do seu pai, o líder camponês João  Pedro Teixeira. Isso soa como uma grande novidade, mesmo já se sabendo que o avô pertencia historicamente ao grupo de latifundiários que se opunham às Ligas Camponersas e estava em conflito aberto com o genro. Embora não haja provas de participação direta no crime, a fala de Marinês indica ao menos um indício, uma forte suspeita.

Na Paraíba, Coutinho conversa com Isaac (o filho que estudou Medicina em Cuba), Carlos, Nevinha e o irmão de Dona Elizabeth, Manoel Justino. A imagem de uma família fragmentada permanece 50 anos depois da interrupção do primeiro Cabra e 30 após o lançamento do filme. Fala-se do episódio em que um dos filhos, Pêta, matou o irmão José Eudes por causa do projeto de uma associação de defesa dos camponeses.

Entre tantos casos de morte em família, uma singela mas comovente contrapartida surge na figura da neta Juliana Elizabeth, filha de Nevinha. Ela abraçou a carreira de professora de História depois de ver Cabra Marcado para Morrer e hoje pesquisa o tema das Ligas Camponesas. É ela quem leva Coutinho à antiga casa de João Pedro, em Sapé (PB), hoje transformada em Memorial das Ligas Camponesas. A saga dessa família e seu entrelaçamento com a luta pela terra é um ciclo que parece não ter começo nem fim.

O DVD vem acompanhado de um livreto com textos de Coutinho, Walter Lima Jr., Sylvie Pierre, Alicia Migdal, Manuel Martínez Carril e José Carlos Avellar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s