Quatro filmes e um ensaio

Pra começo de conversa, RIO 2 deveria se chamar “Amazônia”. O Rio está ali apenas como plataforma festiva de lançamento da trama, que se passa inteiramente na floresta lá do Norte. A bicharada ocupa a cena sob um leve pretexto de defesa ecológica, perto do qual “Tainá” fica parecendo um épico ativista. Muito mais que o primeiro RIO, este assume frontalmente a intenção de ser um produto embalado para estrangeiro ou turista com aquele mix de português e inglês. Tem mais música, mais dança, e pode ser visto como um Busby Berkeley no mundo animal. É barulhento, agitado, e apresenta um festival de falsetes que chega a ferir os ouvidos. As vilanescas cacatua e rã tóxica têm um design sofisticado, como aliás todo o filme, mas não emplacam como era de se esperar de vilões carismáticos. Há muitas subtramas que não se desenvolvem, assim como as tartarugas capoeiristas, que despertam nossa curiosidade para frustrar logo em seguida. Mas o maior defeito do roteiro, a meu ver, é não retornar ao Rio no final. Fica a impressão de que a prefeitura carioca não contribuiu na medida esperada.

EM BUSCA DE IARA não é um perfil biográfico de Iara Iavelberg. Pelo filme, verificamos como era realmente linda, mas pouco sabemos de sua vida, de suas ideias e de sua real contribuição para a luta armada. A sobrinha de Iara, Mariana Pamplona – que dirige o filme junto com Flavio Frederico -, desempenha o papel de repórter num documentário de investigação sobre as condições em que a guerrilheira morreu, num apartamento de Salvador, em 1971. Ela entrevista parentes e companheiros de ativismo, assim como testemunhas e um legista, em busca de informações que comprovem o assassinato pela repressão em lugar da versão oficial de suicídio. Casos semelhantes, como os de Vladimir Herzog e de Celso Afonso Gay de Castro (“Diário de uma Busca”), indicavam a grande possibilidade de assassinato, o que ficou comprovado pela autópsia posterior à exumação do corpo de Iara. Acontece que as evidências reunidas no filme não são suficientes para corroborar a nova versão. O depoimento crucial do legista, apesar de oralmente firme, a um leigo como eu não pareceu convincente do ponto de vista visual. Daí resulta uma certa inconsistência do filme, uma vez que o foco está muito concentrado na investigação. “Diário de uma Busca” fugia a essa armadilha ao evitar o aspecto policial e investir na evocação pessoal. O mesmo se pode dizer de “Vlado”, de João Batista de Andrade. Mariana Pamplona preferiu o caminho pedregoso das provas. Tenho dúvidas se chegou ao destino almejado.

Não é a toda hora que nos deparamos com um filme croata no cinema. OS FILHOS DO PADRE se passa numa pequena ilha do Adriático e se nutre de questões cruciais para aquela região: a baixa taxa de natalidade, a pedofilia na Igreja católica e os ecos da guerra etno-religiosa dos anos 1990. Esses temas são tratados em chave de comédia regionalista sobre um padre que resolve boicotar o controle anticoncepcional juntando-se a um vendedor de camisinhas e um farmacêutico. No princípio, há certa graça nos expedientes utilizados, mas, depois que evolui para as consequências, a trama perde gradativamente o fôlego até um final francamente decepcionante. No fundo, é filme de uma piada só (ok, duas), que não consegue manter o humor para além de sua enunciação. Lembra certas telenovelas ambientadas em cidades pequenas, com personagens limitados por características muito marcadas e a ideia de transgressão restrita a uma medida cautelosa para não ofender a ninguém. Talvez por isso, parte do público da sessão que vi no Estação Botafogo aplaudiu no final.

Um livro de Sacher-Masoch transformado em peça de David Ives, então levada ao cinema por Roman Polanski – eis A PELE DE VÊNUS, último filme do diretor polonês. Trata-se de uma fantasia teatral sobre uma atriz autoconfiante que tenta convencer o adaptador de uma peça de que ela é a escolha ideal para o papel. O que começa como um ensaio forçado vai se tornando aos poucos um jogo de sedução e subjugação entre os dois. Vanda, a atriz, é uma falsa loura burra que se revela uma dominatrix de mão cheia. O dramaturgo cede gradativamente seu poder até se tornar um objeto de manipulação, um escravo. Personagens e atores se confundem nas suas respectivas funções. Os papéis se invertem no sexo e no teatro, numa equação um tanto fácil, mas que tem seus bons momentos. Polanski não deixa de tirar um sarro com a escalação de sua mulher, Emmanuelle Seigner (ótima, por sinal), e Mathieu Amalric, um quase sósia dele próprio quando jovem. A brincadeira sado-masoquista peca, porém, quando se assume inteiramente como (mau) teatro, perto do final. O kitsch se sobrepõe à já pouca sutileza e aí quem sofre é o espectador. Estamos mais próximos do peso de “A Morte e a Donzela” que da eficácia de “Deus da Carnificina”. Em matéria de divertimentos pós-modernos com o teatro, acho que o velho Resnais era melhor.

O cineasta Evaldo Mocarzel publicou no site Críticos um ótimo ensaio denominado “O ator como forma fílmica em tempos digitais”. Evaldo é jornalista e ex-crítico de cinema que enveredou pela carreira de realizador e dramaturgo. Um profundo interesse pelo diálogo entre cinema e teatro tem marcado seus trabalhos mais recentes. Daí o olhar apurado que ele lança sobre o ator diante da câmera – não apenas como performance, mas sobretudo como imantação corporal, como superfícies capazes de plasmar imagens e ideias mediante os recursos da captação digital. É interessante vê-lo discorrer sobre sensorialidade audiovisual e “sinestesia fílmica” a partir de experiências que ele mesmo partilhou, especialmente no curta A Cicatriz é a Flor, ensaio poético sobre o amor como escritura e memória gravadas no corpo. O texto faz digressões também sobre alguns temas prediletos de Evaldo: a obra de Robert Bresson (de quem ele traduziu no Brasil o livro Notas sobre o Cinematógrafo), o hibridismo entre documentário e ficção, o conceito de “monólogo interior” desenvolvido por Eisenstein. Leia a íntegra do texto aqui.

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