Documentários: o épico e o tedioso

VIRUNGA, concorrente derrotado na disputa do Oscar, é um motivo de orgulho para quem faz e ama documentários. O inglês Orlando von Einsiedel é um documentarista e desportista radical que já juntou as duas vocações, por exemplo, em filmes sobre snowboard e skatistas de Kabul. VIRUNGA o manteve ligado durante dois anos nas disputas – não mais esportivas, mas bélicas – em torno do Parque Nacional de Virunga, no Congo. Enquanto por lá estava documentando a luta pela preservação dos gorilas da montanha, voltou a estourar a guerra civil no país e os rebeldes expulsaram o exército da área para ocupá-la militarmente. Com equipe mínima e talento máximo, von Einsiedel consegue fechar todas as pontas de um cenário multifacetado, em que caçadores ilegais tentam dizimar a fauna e rebeldes corruptos procuram se aliar a uma grande empresa de mineração britânica para levantar as barreiras de proteção ao parque e fazer testes sísmicos para exploração de petróleo, botando em risco o ecossistema e a biodiversidade da região. Grandes personagens brotam da narrativa, como o heroico diretor do parque, um devotado cuidador de gorilas, um guarda florestal e uma jovem repórter francesa que se arriscam na coleta de evidências das intenções nefastas da empresa e do esquema armado com os soldados rebeldes. Câmeras ocultas na roupa, registro direto de combates e desespero, e achados dramáticos na selva se combinam num thriller documental de mexer com os nervos e a consciência. Em contraponto a esse corajoso aparato de denúncia, as deslumbrantes imagens da natureza congolesa conferem ao filme uma dimensão épica. VIRUNGA faz a maioria dos outros documentários parecerem pesquisas escolares ilustradas.


Meu caro Andre Miranda​ adorou, mas eu simplesmente detestei NICK CAVE: 20.000 DIAS NA TERRA. Talvez por estar bem longe de ser um fã do rock dark e lamuriento ou da personalidade vaidosa do cara, mesmo na época (80/90) em que ele era cultuado por Wim Wenders. Desconfio que este seja um filme para fãs ardorosos, capazes de ficar ouvindo suas ruminações (algumas bonitas ou engraçadas, mas em geral pedantes) sobre criação artística, suas conversas com o psicanalista e algumas vagas lembranças sugeridas por uma estranhíssima projeção de slides. Falso doc de observação com firulas de edição pretensamente experimentais, é na verdade um promo de longa metragem para exibir os colaboradores, algumas fixações como um diário meteorológico, umas poucas canções e a mulher linda com quem está casado. A descrição do momento em que ele se apaixonou por ela, tão fictícia como todas as outras, foi uma das poucas cenas que me tiraram do torpor. De resto, fiquei exposto ao tédio infinito de sua música e à megalomania de quem enche a boca para dizer que “criou um mundo” e fez da vida “uma narrativa”. Honestidade só vi no instante em que ele admite: “Sempre fui um bastardo arrogante”.
Duas notas à parte sobre o que está sendo exibido no cinema: as letras das canções, fundamentais para que se compreenda a passagem do pensamento à arte de Nick, não estão legendadas. E a versão que estava até quarta-feira no Espaço Itaú (Rio) tinha as margens do quadro cortadas, como filme panorâmico exibido nas antigas TVs quadradas. É por essas e outras que vou cada vez menos ao cinema fora de casa ou de festivais.

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