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No último dia 25, na Cidade do México, foram entregues os Prêmios Fênix aos melhores filmes iberoamericanos de 2015. Esta foi a segunda edição do prêmio, conferido pela associação Cinema 23, que reúne críticos e gente de cinema da América Latina, Portugal e Espanha. O Clube, de Pablo Larraín, ficou com alguns dos principais prêmios no segmento de ficção, inclusive o de melhor filme. Últimas Conversas, o filme póstumo de Eduardo Coutinho finalizado por João Moreira Salles e Jordana Berg, levou o de melhor longa documentário. Veja aqui a lista completa dos premiados.

Eu participo do júri de documentários, o que representa uma boa oportunidade de conferir os melhores títulos de cada país, conforme indicação inicial dos jurados locais. A seguir, compartilho com vocês alguns comentários sobre os docs que me causaram melhor impressão. Não incluo aqui os finalistas brasileiros, Últimas Conversas e Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang, de Walter Salles.

El Botón de Nácar, de Patricio Guzmán (Chile), sofre um pouco com as altas expectativas despertadas por “Nostalgia da Luz”. Guzmán passa do deserto às águas em sua pretendida trilogia sobre o destino dos chilenos. O formato do filme-ensaio, narrado pela voz cálida e compassada do diretor, lhe permite lidar com materiais diversos – entrevistas, arquivos, reconstituições, imagens computadorizadas – e transitar com bastante liberdade entre temas distantes, mas conectados por paralelos históricos e similitudes poéticas. Nesse caso, dois misteriosos botões encontrados no oceano levantam uma série de evocações e especulações a respeito do extermínio dos povos indígenas (no que o filme se aproxima bastante do “500 Almas” de Joel Pizzini) e do assassinato de ativistas de esquerda durante a ditadura Pinochet, cujos corpos eram atirados no mar. Guzmán adiciona informações científicas, ressonâncias míticas e lembranças pessoais a seu discurso, tendo sempre a água como mediadora entre épocas e espaços longínquos. O Chile, com seus 4.300 km de litoral, não conseguiu manter intimidade com o mar. Encontramos aqui o mesmo sentido de maravilhoso das imagens como no filme anterior, mas nem tudo se repete com a mesma eficácia. Algumas conexões soam frágeis demais, quase forçadas, como a dos botões do título. E o estilo solene que nos encantou em “Nostalgia da Luz” agora pode soar um tanto reiterativo e exaurido. Ainda assim, que se diga, é um filme belíssimo.

Allende meu Avô Allende, de Márcia Tambutti Allende (Chile), como adianta o título, é um documentário familiar, um filme de busca de vestígios de memória doméstica e superação de um longo silêncio. Enquanto vasculha os baús e as recordações de parentes e amigos, Márcia vai expondo, pela primeira vez, o vazio que o avô deixou na família. O trauma foi enorme. A casa foi bombardeada por ocasião do golpe, os álbuns de fotografias se perderam. Três parentes próximos se suicidaram depois do próprio Salvador. A dificuldade de sair do silêncio é evidente em várias conversas, quando os entrevistados pedem para interromper a filmagem. Fotos e filmes domésticos são trazidos à luz e comentados pelos familiares. As conversas com a viúva de Allende, Hortensia, fazem os momentos mais intensos da coleta da neta. As relações extra-conjugais do marido, de que ela tinha notícia, eram fonte de sofrimento. Talvez não haja tanto assim a recuperar da vida privada do ex-presidente, tão invadida que era pela vida pública. Por isso o filme se coloca mais como uma tentativa de reconstruir um retrato de família do que um perfil do personagem-título.

Hija de la Laguna, de Ernesto Cabello Damián (Peru), faz um corte transversal na disputa pelas terras do altiplano peruano onde ainda pode existir reservas de ouro. A personagem-título e narradora principal é a estudante de Direito Nélida Ayay Chilón, ativista de origem indígena que se considera protetora dos deuses habitantes das águas. Mas o filme enfoca também uma pequena proprietária que resiste ao assédio de uma grande mineradora sobre suas terras, uma designer de joias holandesa que vem à Amazônia para ver a extração do ouro e assume o ponto de vista da má consciência branca, trabalhadores das minas que rezam ao deus da montanha para encontrar ouro e participantes de manifestações contra um megaprojeto de mineração. Entre a luta e a queixa, a política e a mitologia, o doc cumpre bem seu papel de libelo popular. A fotografia, belíssima, chega ao virtuosismo, mesmo que para isso recorra a situações frequentemente posadas.

El Caso Boliviano, de Violeta Ayala (autora do premiado Stolen), usa um fantástico poder de síntese para contar a aventurosa saga de três norueguesas presas como “mulas” de tráfico de drogas ao saírem da Bolívia. Com uma justificada estética de tablóide e roteiro irrepreensível, a coprodução com a Austrália traça o rocambolesco balé de fugas, mentiras e relações perigosas, com participação ativa da mídia, de consulados e do governo norueguês. Fica claro também como os preconceitos contribuíram para que Madelaine Rodríguez, a única acusada com sobrenome latino, fosse a única a mofar na prisão boliviana enquanto as outras seriam julgadas na Noruega. Violeta Ayala se firma aqui como uma das mais bem dotadas documentaristas investigativas em atividade.

Chicas Nuevas 24 Horas, de Mabel Lozano (Espanha), trata do tráfico internacional de prostitutas. O filme nos conduz através de uma rede estendida entre a Espanha e vários países sul-americanos, na qual, a cada ano, 4,5 milhões de “chicas” são contratadas num negócio que rende cerca de 32 milhões de dólares. As mulheres são recrutadas em locais como escolas e discotecas para supostamente trabalhar em restaurantes. Muitas se sacrificam para custear a viagem, em rotas que podem passar por São Paulo, Itália (para “visitar o Vaticano”) ou Panamá até a Espanha (terceiro maior consumidor de prostituição depois da Tailândia e de Porto Rico, segundo o filme). As famílias às vezes estimulam as viagens em troca de dinheiro e das remessas que virão. As “chicas” não raro terminam endividadas, doentes ou mortas no exílio. Mabel Lozano vai a bares de putas no interior do Peru, investiga a indústria de classificados de sexo e entrevista mulheres peruanas, colombianas e paraguaias. Ela combina procedimentos diversos como depoimentos, cenas ilustrativas de rua, estatísticas e câmera oculta em clubes espanhóis. Com isso forma um painel bastante informativo, embora redundante aqui e ali. Mas nada prejudica tanto o filme quanto um irritante dispositivo ficcional que simula uma palestra sobre o modelo de negócio da “trata”. A ironia, além de deslocada, é feita de maneira grosseira e incompetente.

The Troublemaker – Behind the Scenes of the United Nations, de Roberto Salinas (Nicarágua), acompanha um ano de trabalho do Padre Miguel d’Escoto como o mais improvável presidente de uma Assembleia Geral da ONU, a 63ª. Suspenso da Igreja por sua adesão à Teologia da Libertação, o ex-ministro das Relações Exteriores nicaraguense chegou com tudo ao cargo. Assustou com seu discurso esquerdista e crítico à rigidez da ONU. Denunciou o imobilismo do Conselho de Segurança, assumiu a defesa dos palestinos em Gaza, elogiou a União Bolivariana e procurou trazer os países marginalizados ao centro de decisões importantes. O filme desfruta de um acesso privilegiado não só a conferências amplas como a reuniões do seu gabinete, viagens e até a cochichos dele com diplomatas. O encontro de Miguel com Fidel Castro em Havana é uma das sequências mais raras do documentarismo político contemporâneo. O resultado geral é ora eletrizante, ora simplesmente demonstrativo de como uma relação de confiança é fundamental para esse tipo de filme. Miguel d’Escoto presidiu a Assembleia entre 2008 e 2009. Em 2014, o Papa Francisco revogaria sua suspensão.

Cuerpo de Letra, de Julián D’Angiolillo (Argentina), descortina a ação dos grafiteiros contratados para fazer anúncios comerciais e propaganda eleitoral em Buenos Aires e cercanias. Eles formam uma espécie de pequena máfia, com grupos disputando território e agindo geralmente na escuridão da noite. O diretor emprega a observação pura, meio impressionista, bastante imersiva, com uma fotografia noturna quase sobrenatural de Matías Iaccarino. Em algumas passagens, o filme alcança uma tonalidade alucinatória. Filmagens clandestinas se combinam com outras encenadas para retratar, de maneira original, o submundo desses grafiteiros e locutores cooptados pelo sistema.

Canción de Barrio, de Alejandro Ramirez Anderson (Cuba), vale-se de uma turnê do lendário compositor e cantor Silvio Rodriguez para mostrar uma Cuba que não aparece nos filmes oficiais. É a vida dura nos bairros mais afastados de Havana e em províncias do interior, por onde Silvio leva sua música numa “gira” que começou em 2010. As apresentações musicais se alternam com uma reportagem sobre as insatisfações, a violência, as estratégias e soluções ilegais arranjadas pela população para minorar suas carências. São projetos urbanísticos abortados, gente albergada precariamente há até 15 anos, débeis esperanças com relação ao futuro. As pessoas falam e mostram suas condições de vida abertamente para a câmera, o que demonstra o relaxamento da censura velada antes existente. Não aparece qualquer interação de Silvio com a população, a não ser nos shows. A turnê foi um pretexto para que a equipe obtivesse autorização oficial para filmar naqueles lugares. A força da denúncia é muitas vezes sabotada por uma edição desastrosamente picotada e cheia de time lapses, como que aplicando um ritmo de videoclipe a um doc social. Mas quando vemos o povo cantando junto com Silvio, ou com Omara Portuondo na apoteose do filme, é uma Cuba emocionante que se irradia na tela. O doc pode ser visto na íntegra no Youtube.

Alfaro Vive Carajo, de Mauricio Samaniego (Equador), traça a história do grupo guerrilheiro que afrontou o governo sanguinário de León Febres Cordero nos anos 1980. Considerando-se herdeiros das revoluções cubana e sandinista, os membros do AVC não se contentavam com as teorias de esquerda e partiram para a ação, abraçando os ideais do ex-presidente Eloy Alfaro (1842-1912), um general progressista. Praticaram sequestros, assaltos a bancos e roubo de armas (“recuperações” no jargão revolucionário) e chegaram a tomar um importante jornal e uma estação de rádio. Tudo é contado por sobreviventes do grupo, que seria desbaratado ao cabo de uma intensa caçada. Os relatos de combates e torturas em primeira pessoa são particularmente preciosos como testemunho histórico. Foi uma história trágica, que incluiu tentativas de suicídio, familiares mortos ou desaparecidos e resgates espetaculares. Os remanescentes exibem seus ideais ainda vivos e alguns deles, com orgulho, dizem que fariam tudo outra vez. Hoje o grupo se transformou em partido político formal com o apoio do presidente Rafael Correa.

El Cuarto de los Huesos, de Marcela Zamora (El Salvador), é um filme duro de ver, mas revelador de como a morte se banalizou em El Salvador, primeiro pela guerra civil (1980-1992), depois pela guerra de gangues que ainda hoje ensanguenta os subúrbios de San Salvador. O cenário do doc é o Instituto Médico Legal da cidade. Ali mães e avós vão procurar seus mortos, cada vez mais jovens. Ali dedicados funcionários exercitam sua vocação para cuidar dos corpos e reconstituir esqueletos desde a época da guerra civil. Marcela Zamora, também jornalista, acompanha a exumação de corpos enterrados em fossas clandestinas e também o transporte de cadáveres não reclamados para valas comuns. Não há propriamente morbidez, mas uma visão crua de como tantas vidas se perdem no anonimato, sem ter sequer quem vele seu fim.