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O Rio São Francisco, historicamente muito presente no cinema brasileiro, ganha um primeiro documentário de longa metragem exclusivamente dedicado a sua paisagem humana e mítica. Cinco realizadores – Eduardo Nunes, Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante e Eduardo Goldenstein – pegaram os remos para explorar esse universo em Cinco Vezes Chico – O Velho e sua Gente.

Trata-se de um doc basicamente poético, um retrato visual e falado do rio, que não se aferra a princípios etnográficos, sociológicos, nem ecológicos. Ou seja, um frescor imenso em matéria de documentário sobre tema como esse. A primeira parte exibe uma fluência que eu diria líquida, com a introdução e as aparições de um poeta, alguns pescadores com suas histórias mirabolantes, uma mãe-de-santo e um escultor. As locações se estendem pelo curso do rio, de Minas à fronteira de Alagoas e Sergipe. Pouco a pouco vai se criando uma unidade de dicção poética que só faz se adensar mais e mais, cada personagem e universo se apresentando com sutileza, sendo desvendado paulatinamente com as imagens extasiantes da diretora de fotografia Heloísa Passos.

Uma certa irregularidade, característica dos filmes em episódios (na verdade, trata-se aqui da reunião de cinco curtas), começa a aparecer no trecho sobre a família de um pescador, quando a narrativa fica um pouco mais flácida e corriqueira. Da mesma forma, o episódio do especialista em cangaço, embora muito bem narrado até a revelação da condição real do personagem, foge bastante ao tom do resto do filme. Lança mão de materiais de arquivo, faz citação, distancia-se do assunto central.

As coisas se reaprumam no belíssimo epílogo, a cargo de Eduardo Nunes, que procura resgatar os cacos do lirismo arrebentado na correnteza do filme. A visão onírica do rio e das dunas, no rumo de um certo farol, fecha o ciclo da vida com o menino e o velho. É sem dúvida a maneira certa de nos restituir ao que o filme tem de melhor: o Velho Chico para além do banal, remando entre a intimidade e o mito.

P.S. O São Francisco deve reaparecer em breve nas telas em Transposição, que vem sendo construído também no modo coletivo, sob a supervisão de Vladimir Carvalho.