Periferia e agreste

INVASORES, em cartaz exclusivamente nos cines Joia, toca em teclas bem conhecidas: a relação da cultura erudita com a vivência da periferia, o sonho de uma menina pobre em estudar piano clássico numa universidade de elite, a sensibilização pela música. Um aspecto interessante da história escrita por Ana Paul é que, em vez do choque, há uma surpreendente interação entre as intenções da protagonista, Claudia, e as do seu namorado, integrante de um grupo de pichadores de alto risco. Eles invadem lojas e centros culturais para que ela possa praticar o piano, culminando com uma ação conjugada de música e spray na veneranda Sala São Paulo. A invasão ganha foros de metáfora da perseverança em busca da inclusão social.

Eis um filme repleto de boas intenções, embora elas sejam com frequência fragilizadas por uma dramaturgia ingênua, insuficiências do elenco e diálogos por demais ilustrativos das gírias da periferia paulistana. A boa fotografia de Miguel Vassy cria certa adesão, e algumas cenas têm um lampejo especial, como a dos personagens cruzando com os limpadores de pichação e a do spray escorrendo como numa partitura ao som de Villa-Lobos. Originalmente um telefilme da TV Cultura, INVASORES traz a figura do anjo do arrabalde para o contexto contemporâneo das invasões urbanas.



Poucas empreitadas no cinema brasileiro recente parecem tão esdrúxulas quanto REZA A LENDA. A ideia foi combinar uma estética punkfashion na linha de “Mad Max” com o imaginário do agreste nordestino. Temos então uma gangue de motoqueiros ocupando o lugar dos velhos cangaceiros, dispostos a enfrentar a oligarquia do sertão para restabelecer um mito da região e, com isso, trazer a chuva à caatinga ressequida. Diversas temporalidades convivem no mesmo espaço: beatos, santas milagrosas, coiteiros, raves orgiásticas e metralhadoras giratórias.

O clássico musical “A Noite do Espantalho” tentou algo parecido em 1974, ao juntar cacos do Cinema Novo com uma estética pop vinda do cinema americano. REZA A LENDA tem a coragem de retomar esses elementos, e talvez o personagem de Julio Andrade seja um aceno ao de Alceu Valença naquele filme de Sérgio Ricardo. Mas a proposta não passa perto de uma adequação minimamente satisfatória. Em lugar de uma apropriação do filme de ação contemporâneo ao universo brasileiro, ficamos somente com uma macaqueação de estilo e trejeitos. Tudo se dilui numa overdose de cenhos franzidos, caras enfezadas, roupas de couro surradas, trocas de tiros e planos aéreos do cortejo de motos se deslocando pelo sertão. E se alguma intenção havia de lançar um olhar do século XXI sobre o universo sertanejo, o resultado não passou de uma salada mista em que, literalmente, entrou areia.

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