Turquia repressiva, Holmes idoso, Polônia anoréxica

Concorrente ao Oscar de filme estrangeiro, CINCO GRAÇAS remete inicialmente ao plot de “As Virgens Suicidas”: cinco irmãs entre a infância e a adolescência são mantidas sob o jugo de parentes conservadores, com algumas consequências trágicas. O cenário do norte da Turquia acrescenta, porém, ingredientes distintos, como os casamentos arranjados e a perspectiva sempre presente de evasão para Istambul. O filme tem um excelente rendimento de parte das cinco jovens atrizes e uma energia permanente na encenação, mas a mim soou um tanto exacerbado em sua premissa dramatúrgica. O encarceramento progressivo das meninas, em condições tão brutais, não me pareceu combinar com o perfil daquela família de classe média do interior, de hábitos relativamente contemporâneos. A justificativa que se revela progressivamente, relacionada à hipocrisia da moral familiar, sobrecarrega o roteiro e roça o o implausível.

A diretora Deniz Gamze Ergüven, turca criada na França, lamentou que o filme tenha sido considerado “francês” dentro da Turquia. Talvez haja mesmo ali um olhar semi-estrangeiro a lidar mais com estereótipos consagrados e mensagens libertárias do que com a realidade da Turquia de hoje.

Com relação ao enigmático título original, “Mustang”, vale traduzir a explicação da diretora ao site da Fipresci: “Antes de mais nada porque é um filme sobre têmpera. Tem essa selvageria que não se pode domar. Visualmente, há o eco do cabelo das garotas, que parecem crinas de cavalos. Elas realmente parecem cavalos selvagens e belos, e então pensei naquela cena de “Os Desajustados”, de John Huston, em que eles tentam prender os cavalos no chão com cordas. Metaforicamente, estava muito próximo.”



mr-holmes-ian-mckellenTrês observações vadias sobre SR. HOLMES:

  1. O romance de Mitch Cullin é a típica obra intertextual pós-moderna, em que um personagem ficcional, Sherlock Holmes, é tratado como criatura real e até critica os relatos que dele fazia o fiel escudeiro Watson. Numa sequência bastante curiosa, mas mal aproveitada como quase tudo no filme, Holmes (Ian McKellen) vai ao cinema assistir a uma de suas aventuras e questiona o que vê na tela. Holmes aqui está às voltas com seus quase cem anos de solidão e a perda da memória. Nada de cachimbos, chapéus e racionalismo militante.
  2. Um sentimentalismo que creio bastante inédito para Holmes se cria na relação entre o velho detetive e o menino, filho da governanta, seu fã ardoroso. O pequeno Roger (Milo Parker) é uma daquelas crianças irritantes do cinema que parecem adultos em miniatura. Uma certa inversão de idades entre ele e Sherlock é uma das ideias infelizes do roteiro.

3. O convencionalismo da direção de Bill Condon confere ao filme uma aparência ultrapassada, uma temperatura morna e uma impessoalidade característica das produções clássicas da BBC. Os estereótipos da “britanicidade” se aglomeram como abelhas em torno da colmeia.


Lançado por enquanto somente em São Paulo e Porto Alegre, o filme polonês BODY nos joga num estranho limbo entre vivos e mortos, crença e ceticismo, drama e comédia. O título chama atenção para a materialidade dos corpos em cena: os cadáveres com que Janusz, o promotor de polícia, lida no seu trabalho e o corpo de Olga, sua filha, consumido pela bulimia. No entanto, a terapeuta Anna tem a estranha particularidade de tratar não somente de corpos anoréxicos, mas também de mentes abaladas pela perda de entes queridos. Ela acredita ter poderes mediúnicos, ativados desde que sofreu, ela também, uma perda no passado.

Com esses ingredientes conflitantes e apenas três personagens atuando em espaços geralmente frios e desprovidos de afetividade, BODY joga suas fichas no descompromisso com qualquer alinhamento. Ora se avizinha do thriller sobrenatural, ora pretende desnudar a hipótese espiritualista como mera projeção da psique, numa espécie de versão paródica e invertida de “O Sexto Sentido”. A diretora Malgorzata Szumowska (“Elles”) costuma trabalhar com ótimos atores e uma saudável disposição para tratar assuntos sérios de maneira desconcertante. BODY pode agradar principalmente a quem encará-lo não como um estudo de caso, mas como uma especulação, até certo ponto lúdica, sobre as formas como cada um de nós encontra conforto para seus padecimentos.

Uma curiosidade: o Brasil é citado por Anna como lugar avançado para os adeptos do espiritualismo. “Lá as pessoas são mais sensíveis ao sofrimento”. É, pode ser.

 

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