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Conhecida pelo espaço que abre para diretores jovens e propostas de renovação do cenário cinematográfico brasileiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes, nessa sua 19ª edição, contempla realizadores veteranos em proporção talvez inédita. Não falo apenas das sessões do Cinema na Praça, que sempre trouxeram filmes de apelo mais popular, independente da faixa etária e currículo dos diretores. Até a Mostra Aurora, dedicada apenas a realizadores com não mais de dois longas na carreira, ocorre de apresentar este ano um jovem cineasta de 83 anos. Luiz Paulino dos Santos (Um Dia na Rampa, Crueldade Mortal) estreou ontem Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?, uma volta ao cenário e personagens do seu curta Ikatena – Vamos Caçar, de 1983.

Ruy Guerra, 84, já mostrou o seu Quase Memória, baseado no romance de Carlos Heitor Cony, e Walter Lima Jr., 77, exibiu Através da Sombra, inspirado em livro de Henry James. A homenagem principal da mostra foi destinada este ano ao mestre Andrea Tonacci, 71, referência do cinema de invenção no país. A esses dois veteranos se somou na Mostra Autorias a bem mais jovem, mas igualmente experiente, Maria Augusta Ramos, 51, com seu Futuro Junho. Aos 83, Sérgio Ricardo pegou a van da mostra no Rio para trazer seu novo curta, Pé sem Chão, e Lírio Ferreira, 50, tem programado o curta documental Melancia. Na mostra Cena Mineira, constam o longa Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda, 70, e o curta Bili com Limão Verde na Mão, de Rafael Conde, 52. A Sessão Debate, de filmes que requerem exame talvez mais aprofundado que a média, inclui Garoto, de Julio Bressane, 69, e Ralé, de Helena Ignez, 73.

Se esses diretores são selecionados pela curadoria em função de sua trajetória criativa, que permite traçar linhas de continuidade entre o passado do cinema brasileiro e a produção esteticamente mais arriscada de hoje, o fato é que também para outras faixas etárias, como cantou Cazuza, o tempo não para. Assim é que diversos cineastas identificados com a geração Tiradentes já não são mais tão jovens assim. Dellani Lima, um dos teóricos do “cinema de garagem” e que faz aqui a pré-estreia do longa Planeta Escarlate, está completando 39 anos nesta quinta-feira, um ano a menos que Petrus Cariry, autor de Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois.

Entre os que já cruzaram a faixa dos 30 anos e estão presentes na programação de curtas deste ano figuram Taciano Valério (Ainda me Sobra Eu), Rodrigo de Oliveira (Eclipse Solar), Fábio Andrade (Dois Pássaros) e Pedro Diógenes (Fort Acquario), só para citar alguns que conheço melhor. Para a média de idade que circula sobre as pedras da cidade, eu próprio sou mais que veterano. Aos 62, sou o decano do júri da crítica, integrado também pelos “meninos” Angela Prysthon, Arthur Autran, Marcelo Ikeda e Paulo Henrique Silva. Ainda bem que estão por aqui também os colegas Ismail Xavier e Luiz Carlos Merten, que não me deixam sentir-me como um solitário robalo maduro no aquário dos peixes novos.