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O escritor, poeta e cinéfilo Paulo Lima, editor da revista eletrônica Balaio de Notícias, resenhou para nós um documentário recém-lançado no Netflix:

Eu Sou Ali, documentário de 2014 dirigido por Clare Lewins, soa como um requiém ao maior boxeador de todos os tempos. Não apenas. O mais combativo também no ringue das palavras, do humor e da militância pelos direitos civis nos Estados Unidos, que conquistou com Muhammad Ali uma nova positividade.

No documentário, Ali aparece de corpo inteiro. A história de uma das grandes personalidades contemporâneas parte de um início comum a tantos outros ídolos negros da vida americana que se destacaram nos anos 1960. Uma infância humilde cerceada pelo racismo e pelo determinismo.

Mas em Louisville, Kentucky, onde Ali nasceu, havia uma bicicleta no meio do caminho, que mudou tudo. Ali e seu irmão tiveram suas bicicletas roubadas. Na tentativa de prestar queixa a um policial, depararam com uma academia de boxe. Uma dessas inexplicáveis torções do destino.

Ali começou a treinar, ganhou o ouro olímpico em Roma, em 1960, e sua carreira de pugilista alçou voo. O resto é história.

O documentário mostra todas as facetas do homem público, suas vitórias, suas derrotas, sua personalidade exagerada, egocêntrica, divertida e tagarela que acabou se constituindo em seu maior marketing pessoal. Não escapa nada: as grandes lutas, as rivalidades, a perda do título de campeão mundial dos pesos pesados por se negar a lutar no Vietnã, a conversão ao islamismo.

Mas o grande mérito do filme, a meu ver, é revelar a vida pessoal do mito e seu lado pouco conhecido de homem generoso e devotado à família, sensível e chorão. Essa faceta é ilustrada pelos fartos depoimentos de filhas, esposas oficiais, técnicos, jornalistas e amigos. O documentário é permeado pelas gravações dos diálogos que Ali manteve com as filhas, dourando a pílula de pai amoroso.

“Voa como borboleta, pica como abelha” foi o epíteto que definiu seu estilo de boxeador, ao final derrotado por um adversário inesperado: o mal de Parkinson. Clare Lewins teve a sensibilidade, ou o pudor ético, de não expor a derrocada de Muhammad Ali, sua figura trêmula e fora de combate. A doença é apenas mencionada por uma de suas filhas.

A presença de Mike Tyson no filme, que teve em Ali sua maior inspiração e influência, funciona, no fim das contas, como a continuação de um legado, uma espécie de passagem de bastão para uma nova época destituída de poesia, na qual o boxe perdeu sua importância e seu maior símbolo.

Muhammad Ali, ou Cassius Clay, era único, e com ele apagou-se toda uma era.

PS.: O Rei do Mundo é como Ali era também chamado. E é o título de um magnifico perfil do boxeador assinado pelo jornalista norte-americano David Remnick. O livro foi publicado e reeditado há algum tempo pela Cia. das Letras. Vale a pena conferir.

por Paulo Lima