Poéticas de Paula Gaitán

Foi com Glauber Rocha que ela entrou de cabeça no cinema, a partir da direção de arte de A Idade da Terra, mas nunca se pôde dizer que Paula Gaitán era apenas a mulher (ou a viúva) de Glauber. Nascida em Paris e crescida na Colômbia, Paula cultivou desde cedo a vocação de artista plástica e fotógrafa, mais tarde videomaker. A partir dos anos 1980, passou a assinar seus próprios filmes. Forjou uma personalidade própria no cinema brasileiro, calcada no documentarismo poético, no filme-ensaio e mais recentemente na ficção experimental.

Cultuada por jovens cineastas e críticos, mantém com eles estreita colaboração, o que ajuda a mantê-la sempre muito jovial na forma como concebe e toca seus projetos. Uma boa visão do conjunto de seu trabalho está na Mostra Poética da Memória, que começa hoje (segunda) na Cinemateca do MAM-RJ. Na programação, com curadoria de Hernani Heffner, estão 24 títulos de sua filmografia e alguns projetos inéditos ou ainda in progress.

Comento aqui alguns filmes que conheço. Sobre Exilados do Vulcão, recentemente exibido nos cinemas, escrevi resenha aqui.

Descobertas no Xingu

Uaka (pronuncia-se Uaká) levou quase todos os principais prêmios da competição de 16mm do Festival de Brasília de 1988. É uma observação etnopoética da preparação do Kuarup na aldeia takumã do Xingu. Paula lança um olhar de descoberta manifestado no uso constante de travellings e panorâmicas que vasculham terras, céus, águas, corpos e objetos. Trechos de Viagem à Lua, de Méliès, parecem comentar essa viagem de Paula a um planeta desconhecido. O cotidiano da aldeia, assim como a preparação de corpos e troncos para o Kuarup, é visto sem qualquer objetividade etnográfica, mas com um sentido de permanente encantamento. Esse olhar de descoberta, ao mesmo tempo, vai formando uma cosmogonia a partir das crenças indígenas de que as nuvens passam recados aos homens e que o deus Mavutsinin os coloca em teste através da célebre cerimônia anual.

Para a beleza de Uaka contribuem muito a precisão dos enquadramentos do fotógrafo Johnny Howard e o tom aveludado da imagem em 16mm, algo que no digital só se obtém mediante a aplicação de efeitos. A edição de som não sincrônica (de Carlos Alberto Camuyrano) e com muitas falas indígenas sem tradução vai ao encontro do desejo de Paula de fugir à informação bruta para mergulhar nos aspectos plásticos e sensoriais. O único dado retórico é um alvorecer de Brasília que surge aqui e ali como a apontar o arruinamento da vida indígena pelas instituições e também a resistência política dos líderes da floresta. Uaka é um filme pouco conhecido, mas cuja linguagem parece ter ficado mais atual hoje do que antes.

Diário do inconsciente que recorda

Um dos mais característicos exemplares do filme-ensaio brasileiro, Diário de Sintra parece negar o título ao não obedecer a uma ordem cronológica, mas a um fluxo de associações poéticas, um diário do inconsciente que recorda. Paula, companheira de Glauber nos seus últimos anos, conviveu com ele e os pequenos Ava e Eryk na bucólica cidade portuguesa (“um belo lugar para morrer”, como disse Glauber a Patrick Bauchau) durante a enfermidade que o vitimaria em 1981. As filmagens domésticas em Super 8 daquele período ressurgem em meio às imagens de uma revisita à Sintra atual. Imagens sobre imagens, vozes sobre vozes – tudo no filme são ecos, vibrações da lembrança que vez por outra se condensam na forma de pequenas performances plásticas, bem de acordo com o estilo da autora.

As fotos de Glauber são expostas entre os elementos da natureza, como parte de instalações panteístas que atraem correntes de memória. As fotos são também entregues a portugueses que se lembram ou que nunca ouviram falar do cineasta. Flutuam na indefinição porque não estão ali como um fim, mas como o princípio de uma busca. “Caminhos que levam a Sintra ou talvez a lugar nenhum”, diz a certo momento a voz de Paula.

A ausência de um destino certo, apesar de Sintra, é o segredo da beleza desse filme. Belos são os silêncios que se opõem à verborragia comumente associada a Glauber, a delicadeza de uma estrutura feita inteiramente de fragmentos, a edição desesperada e muda que quer traduzir a agonia do cineasta perto do final. Não sabemos como Paula lavou e esfregou suas recordações intimamente, mas dividimos com ela esse bonito momento em que as botou para corar ao sol suave de Sintra.

Noite noise

Lembro que Paula Gaitán distribuiu tampões de ouvido aos espectadores do longa Noite, na Semana dos Realizadores de 2014. Ela sabia que fez um filme “extremo”, e não apenas no aspecto sonoro. Depois do relativamente narrativo Exilados do Vulcão, quis partir para uma empreitada ainda mais experimental. Assumiu ela mesma a câmera (e depois a edição) para filmar instantâneos da noite carioca, principalmente em dois points festeiros de Botafogo.

Hits de pauleira eletrônica e de música noise se alternam com blues, canções latinas e performances de Arrigo Barnabé, Arto Lindsay e Ava Rocha, entre outros, num filme que é puro exercício de mixagem audiovisual. As músicas se sucedem sem pausa e dialogam com a busca incessante de Paula por texturas sobrepostas, pixelizações, estroboscopia, refrações de luz e de cor. Mas há sobretudo a procura de um estado de alteração dos corpos dançantes, algo que vai da anomia ao êxtase. Daí que o filme se avizinhe um pouco da estética de Arthur Omar, seja pela fisicalidade exuberante, seja pela conjugação erótica e hipnótica de imagens e músicas possantes.

Em meio a músicos e consumidores, a atriz Clara Choveaux evolui como uma top model transcendental, presente e ausente ao mesmo tempo, quase etérea entre purpurinas e reflexos. De certa forma, é a projeção de Paula dentro da cena, o desejo de confundir-se com a matéria do seu filme. Noite é trabalho que pede não exatamente uma sala de cinema, mas um ambiente expandido que o liberte de expectativas mais convencionais. Se bem que o foco direcionado do cinema deixe bem evidentes sua força e beleza.

Uma mulher entre véus

Uma das vertentes mais visitadas na obra de Paula Gaitán são os perfis de mulheres artistas, nas quais ela de alguma maneira se vê refletida. As atrizes Maria Gladys (Vida) e Marcélia Cartaxo (Agreste) ganharam longas só para elas. Sobre Vida já tive chance de escrever o seguinte:

Uma aparente contradição sempre me intrigou na atriz Maria Gladys. Ela é dionisíaca e triste ao mesmo tempo. É o que se confirma nesse retrato que lhe dedicou a amiga Paula Gaitán. Nele, Maria é vista quase sempre através de um véu. Às vezes é um véu físico: cortinas, lenços e a manta de cabelos através dos quais ela (des)aparece. Às vezes é o véu da performance: declamações, poses, dança, interações brincalhonas com a câmera de Paula. Sempre na fronteira entre a festa e a melancolia.

Não há muita ordem no que Paula oferece sobre/com Maria. As coisas são visivelmente improvisadas no ato da filmagem. Biografia de invenção. Maria vai ao Méier para lembrar a infância, fala do pai comunista e da mãe com alma de artista, conta um pouco do início da carreira e dos tempos de hippie em Londres, comenta sua relação com um ou outro cineasta. Mas os véus estão sempre ali a cobrir parte importante de sua história e personalidade. “Namorei muitos cineastas”, fala entre risos, e fica nisso mesmo. Seus trabalhos no cinema, marcados pelo belo timbre da voz e a capacidade de expressar candura e loucura, são pouco explorados para um doc que pretende sintetizá-la. A concentração de trechos de filmes perto do final desperdiça a perspectiva que poderiam lançar sobre o perfil da atriz numa edição mais orgânica.

Num dos momentos mais espontâneos e reveladores, Maria Gladys folheia sua agenda, convertida em diário e caderno de anotações justamente pela falta de trabalhos para agendar. Na simplicidade dessa auto-exposição, a atriz diz mais de si mesma – e de certo drama do ator marginal brasileiro – do que em toda a trip performática.

Como em Diário de Sintra, mas com resultados mais dispersivos, Paula Gaitán volta a investir num tipo de experimentação que procura fundir sua personalidade com a do retratado. Mantém-se distante dos efeitos digitais, optando pelos óticos – véus, vento, foco, sombras, reflexos -, onde se pode sentir a mão e a voz da diretora na confecção do artesanato. A destacar, em Vida, a presença bonita e desenvolta de Maria Tereza, o anjo que nasceu de Maria Gladys.

Dois breves encontros

Nos curtas Agnès Varda – A Chuva no Meu Jardim e Eliane Radigue – Trilogia da Morte, Paula encontra-se com essas duas grandes artistas. É evidente a simpatia e admiração devotadas a cada uma delas. Agnès Varda a recebe em sua casa parisiense para falar de resistência (à vulgaridade, à publicidade), da maneira como pensa seus filmes (a partir de estruturas, dispositivos) e do prazer em conceber instalações que libertem o espectador da situação clássica do cinema. Ambos os curtas se baseiam em cabeças falantes, pontuados por cenas de filmes ou pequenos trechos de composições eletrônicas.

São filmes muito simples, diria mesmo caseiros, que se nutrem da fala abundante das personagens. O diálogo não dito entre Agnès e Paula é bastante claro se comparamos suas posturas diante do filme-ensaio ligado às poéticas da memória. Já com Eliane Radigue, pioneira da música eletrônica na Europa, apesar de bons insights sobre a história da Música e da Arte, a conversa resulta por demais abstrata e hermética. As intervenções de Paula na edição do filme me pareceram também um bocado idiossincráticas.

 

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