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Nelson Xavier, no papel de um idoso de 92 anos, tem mais uma de suas atuações antológicas em A DESPEDIDA, de Marcelo Galvão. Ele estava sob tratamento quimioterápico quando filmou, e de fato parecia bem mais velho e depauperado do que hoje. Seu personagem, apelidado de Almirante, era dado como morto pela vizinhança. Mas um dia resolve sair sozinho para saldar algumas dívidas da vida, principalmente emocionais. O filme se concentra inicialmente em retratar o esforço e a determinação de Almirante em levar a cabo sua missão. Nesse ponto,  A Despedida se assemelha ao filme anterior do diretor, Colegas, na medida em que aborda um personagem teoricamente incapacitado de viver plenamente, mas que se insurge contra essa condição. Trata-se também de um road movie, só que em ritmo de terceira idade. Ao aproximar-se do objetivo final, que é reencontrar a ex-amante vivida por Juliana Paes, Almirante parece rejuvenescer, encontrar reservas insuspeitadas de energia. O psicossomático trabalha aqui de uma maneira restauradora, realçando a característica positivante do cinema de Galvão, cineasta advindo do meio publicitário.

O argumento de A DESPEDIDA, inspirado no avô do diretor, é essencialmente melodramático. Ainda assim, Marcelo Galvão esteve perto de resgatá-lo pela forma como envolve o espectador na odisseia encenada por Nelson Xavier, um ator capaz de nos fazer “acreditar” em cada gesto, inflexão ou olhar. Essa concentração de recursos, porém, vai se desfazendo progressivamente a partir da divertida sequência em que Almirante interage com um grupo de maconheiros. Mesmo com alguns momentos de verdade cênica entre Nelson e Juliana, o filme acaba resvalando no banal ao incorporar flashbacks de Almirante jovem e buscar um clima idílico e ao mesmo tempo melancólico que não se realiza na tela.



Leva um bom tempo para que BRASIL DNA ÁFRICA diga a que veio. Ou melhor, a que foi. Cinco brasileiros de ascendência africana, depois de passarem por um teste de DNA, viajam para conhecer as comunidades africanas de onde saíram seus antepassados. Mas até que eles embarquem, temos que passar por uma longa introdução histórica e pessoal em forma de mosaico televisivo. O documentário, assinado pelo coletivo Cinegroup, resulta da condensação de cinco episódios de TV. No cinema, em vez de um recorte mais aprofundado, preferiu-se a síntese rápida e uma dinâmica mais afeita ao stress da televisão que à imersão do filme cinematográfico.

Com isso, as experiências de cada personagem em países tão distintos quanto a Nigéria, Camarões, Guiné-Bissau, Moçambique e Angola acabam ficando meio parecidas. O ritmo clipado, a busca da atração permanente e a abordagem um tanto turística esvaziam bastante o sentido de descoberta e tomada de consciência propiciado pelas viagens. Ou, por alguma razão, não se soube provocar situações e extrair observações mais reveladoras. Ainda assim, há alguns encontros interessantes, momentos divertidos e outros comoventes, estes em torno, principalmente, da designer carioca Juliana Lima e do cantor/compositor “pernambaiano” Levi Lima. Pena que a ligeireza e a superficialidade acabem reinando sobre os aspectos mais profundos de uma bonita investigação de identidades.



Um argumento de filme adolescente levado (mas não elevado) à categoria de filme adulto. Assim me pareceu TUDO SOBRE VINCENT, um filme francês com jeito de belga. Embora seus superpoderes se ativem no contato com a água – quando seco, não consegue sequer abrir uma long neck –, Vincent está a zilhas de distância de um Aquaman. Ele é um super-herói operário, taciturno e prosaico, que esconde suas capacidades fugindo aos contatos sociais. Quando enfim parece encontrar uma namorada, as revela privadamente. Depois, ao defender um amigo, é obrigado a expô-las publicamente, transformando o filme numa caçada policial semelhante às do cinema mudo.

O cinema mudo, aliás, não é estranho ao filme inteiro. Assim como pretende desmistificar o gênero super-heróis, Thomas Salvador parece interessado também em fugir à verbalização intensa que caracteriza o cinema francês. Pouco se fala e pouco se explica. Tudo fica na esfera da fantasia poética, calcada em efeitos especiais rudimentares. O diretor/ator, ex-atleta, mergulha e nada muito bem, o que talvez explique a escolha da peculiaridade do personagem. O filme investe na modéstia em todos os sentidos e pode agradar justamente por isso. Ou então ser visto apenas como um curta colegial esticado. Caiu na água, é pra se molhar.