Festival de Brasília, à distância

Pílulas sobre três filmes concorrentes aos Candangos do Festival de Brasília, vistos à distância

O protagonista de ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA é um índio que vai da aldeia para Manaus e quer adotar um nome de branco, Anderson Martin. Quem o vive na tela é Anderson Tikuna, cuja biografia tem alguns traços em comum com o personagem. Ele está literalmente entre dois mundos: trabalha como operário e cabeleireiro, tem experiências sexuais com homem e mulher, canta canções indígenas e Beyoncé. Essa dualidade é condensada numa bonita cena em que ele passa batom nos lábios e em seguida no peito como uma pintura de festa tribal. Ou nos banhos de chuveiro recorrentes, seu novo ritual de purificação.

Os costumes da tribo o perseguem: uma sobrinha doente é sacrificada por familiares em nome da eugenia do grupo; um velho pajé quer obrigá-lo a repetir um ritual de proteção que não teria funcionado na infância. Mas Anderson não quer ficar preso ao que dizem os espíritos de sua gente (“um índio nunca deixa de ser índio”). Na verdade, nem nós, nem ele sabemos bem o que ele quer. Porque talvez não seja uma questão de querer, mas de abrir-se ao que os movimentos da vida vão descortinando. Na última cena, lá está o índio a meio caminho entre a cidade e a floresta, brincando com os ecos de seus gritos.

Nesse segundo longa, Sérgio Andrade (“A Floresta de Jonas”) dirige em parceria com Fábio Baldo e volta a tematizar o sincretismo entre etnias e culturas diferentes no contexto amazônico. Vale reparar como também os brancos vez por outra surgem na tela como entidades um tanto mágicas, descoladas do plano realista. Ou como os índios se apropriam de traços culturais dos brancos, a exemplo do rock e do karaokê. Através de uma narrativa um tanto errática, o filme procura se equilibrar entre o drama etnográfico e a fantasia mítica, entre a crônica da miséria dos índios emigrados e o comentário cético sobre as crenças tribais. A força de algumas cenas em separado é sempre maior que a do conjunto, que mais parece um caderno de anotações esparsas. No quesito técnico, destacam-se a beleza da fotografia nas externas e a ambientação sonora que ecoa os dualismos em jogo.



A CIDADE ONDE ENVELHEÇO, primeiro longa de ficção de Marília Rocha, parece um desdobramento de seu documentário A Falta que me Faz. Naquele, tínhamos as inquietações de um grupo de meninas do interior de Minas no limiar da mocidade. No novo filme, as meninas são mais crescidas e emigraram de Portugal para Belo Horizonte. Francisca (Francisca Manuel) já está há mais tempo e parece aclimatada, coisa que não se confirmará. A princípio com má vontade, ela recebe no seu apartamento a recém-chegada Teresa (Elsabete Francisca), que vem cheia de excitação para tentar uma nova vida. A interação entre as duas, em meio a alguns amigos locais e ao colorido popular do Centro de BH, vai compor uma ficção bastante atravessada pela improvisação e a ambientação documental.

Marília põe em prática seu método de provocar conversas casuais, deixar que uma certa infantilidade das personagens venha à tona para melhor revelar suas camadas mais profundas. A proposta, porém, se mostra um bocado frágil para sustentar-se de pé ao longo de 99 minutos. As oscilações de humor e de temperatura na relação das duas moças acontecem de modo brusco e aparentemente desmotivado. A dicotomia entre Francisca – quieta, racional, nostálgica – e Teresa – efusiva, emocional, aventureira – soa um tanto esquemática. Nesse sentido, é possível que Teresa esteja apenas repetindo o processo vivido por Francisca alguns anos antes, ou, por outro lado, pode ser ela de fato mais fadada do que Francisca a viver no Brasil. Seja como for, qualquer consideração do gênero é insuficiente para justificar tantos sentimentos vagos e diálogos vãos em nome da informalidade.



ultimo-trago

O ÚLTIMO TRAGO é um dos filmes mais silenciosos e enigmáticos do recente cinema brasileiro. Silencioso não somente porque bem pouco se fala (o primeiro diálogo vem aos 23 minutos e os demais são bastante esparsos), mas porque se vale pouco mesmo das palavras para construir sua narrativa mítica. Os atores eventualmente dizem textos de Breton, Bataille, Murilo Mendes, Haroldo de Campos e Rui Barbosa, mas o filme articula suas ideias em outro plano, o das imagens.

São três grandes blocos unidos pelo fantasma de uma índia, que ora é uma stripper, ora uma vingadora armada. Em cada bloco, um personagem surge do nada para dominar a cena: um homem, uma cantora ruiva e uma negra saída do mar. Difícil apreender o sentido semioculto nos tantos mistérios espargidos pelo filme, seja no bar sertanejo onde os homens cultivam o silêncio, seja na mesa espírita que invoca a índia morta, ou ainda no crime célebre que estaria por trás do desaparecimento de três jovens revolucionárias. Fala-se em opressão, destruição e podridão, mas da boca para fora, isto é, com um distanciamento meticulosamente construído.

Os diretores Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diogenes usam uma linguagem flutuante que parte do road movie surrealista, envereda pela encenação brechtiana com direito a cabaré, flerta com a estética de um Edward Hopper do sertão (ver foto acima) e desemboca, em tela quadrada, num clima onírico meio lynchiano. São referências muito díspares, eu sei, mas foi o que as cenas me sugeriram. Esse é o filme que mais radicaliza a tendência mitologizante, latente em várias produções da cearense Alumbramento, como “Estrada para Ythaca” e “Doce Amianto”. Joga uma roupagem contemporânea sobre cenário tosco e história de aspiração transcendental. Às vezes soa intrigante, às vezes parece apenas postiço. O requinte da iluminação e do engendramento dos planos do fotógrafo Ivo Lopes Araújo é talvez o maior fator de coesão de um filme que, em busca do inefável, se abriu para além do apreensível.

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