Em 1992, Alice de Andrade rodou em Cuba um média-metragem inesquecível sobre a rotina dos casamentos na ilha socialista em pleno Período Especial (arrocho econômico que se seguiu ao fim da ajuda soviética). Era Luna de Miel, retrato de projetos românticos em meio às dificuldades. Desde aquela época, pouco ou muito mudou em Cuba, dependendo de como se olhe a realidade do país. Em 2011, Alice procurou alguns dos casais contatados para verificar como andavam suas vidas. Três deles estão de volta em Vinte Anos, longa que passa amanhã (terça, 25) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Dos três casais, apenas um continua reunido em Havana. Um se mudou para Miami e o outro se separou. Alice os confronta com suas imagens em Luna de Miel, mas principalmente com as entrevistas de elenco feitas antes das filmagens. O humor e a esperança de 1992 é substituída por matizes bem mais complexos, que espelham não somente o amadurecimento das pessoas, como as transformações do país. Documentar o destino dos casais vira então um dispositivo para sondar a situação dos cubanos entre 2011 e 2015, quando a reabertura das relações com os EUA começava a abrir um novo capítulo em sua história.

A fragmentação das famílias é o fenômeno mais visível. Silvia e Danilo vivem hoje em Miami com o filho, mas deixaram uma filha retida por uma união conjugal em Havana. Marlene e Mário, separados, têm duas filhas musicistas vivendo na Costa Rica e na Nicarágua. O filme se coloca como uma ponte entre eles. A comunicação internacional ainda era um problema considerável em Cuba, pelo menos até o ano passado. Numa cena, vemos uma pequena multidão com seus celulares desfrutando do sinal wi-fi numa praça de Havana. Como essa, muitas outras observações interessantes sobre o cotidiano de Cuba passam sem alarde pelas câmeras de Alice. Percebemos, por exemplo, o crescimento do empreendedorismo, o surgimento de um esboço de especulação imobiliária, a proliferação de obras e renovações arquitetônicas que parecem nunca se concluir, o avanço das religiões evangélicas sobre as matrizes africanas e o mimetismo hip hop.

Uma mescla de otimismo e ceticismo transparece nos prognósticos sobre o futuro do país. Não mudou muito a maneira como cada um se vira para sobreviver, compartilhar os espaços e recursos exíguos, e melhorar suas condições de vida. No entanto, o amor, que ficava em primeiro plano em 1992, cedeu lugar a preocupações de consumo, moradia e manutenção dos laços familiares. Com sutileza e habilidade para interligar o coletivo e o individual, pode-se dizer que Vinte Anos nos atualiza com a imagem de Cuba e seus movimentos às vezes imperceptíveis no rumo de um pós-socialismo.