Burton e Linklater descartáveis

Tim Burton parece ter se rendido de vez à síndrome do cinema americano que fez diversos gêneros convergirem para um único gênero: o filme de ação. O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES tem uma história que demora muito a “pegar”, refém de uma moldura tediosa sobre um garoto à procura dos segredos do avô. Depois que ele penetra numa bolha temporal (um dia em 1943) e descobre o grande mistério das histórias do velho, o filme se transforma numa espécie de portfólio de efeitos especiais, no qual cada sequência funciona como demonstrativo de alguma façanha digital. As tais crianças exercitam suas peculiaridades (na verdade, superpoderes ligados às leis da física) para combater e escapar de monstros desengonçados, como em qualquer candidato a blockbuster adolescente.

No mundo de Tim Burton, toda pessoa comum, inclusive as crianças, carrega por dentro um monstrinho que pode pular para fora a qualquer momento. A magia, porém, está na estranha delicadeza desses personagens, na simbiose entre excentricidade e graça, infortúnio e ternura. Em O LAR… eles simplesmente se dividem entre os inexpressivos e os exagerados. Embora só uma das crianças seja invisível, é como se as demais tampouco se projetassem para além de um rascunho sem contornos. Desaponta a forma pouco inspirada como é conduzida a complicada trama sobre fendas no tempo e vampirização de olhos. Falta humor, ingrediente que seria fundamental para azeitar a engrenagem. Mesmo visualmente, o filme resulta indistinto, apesar de todo o aparato cênico característico de Tim Burton. A suculenta suíte musical de Michael Higham e Matthew Margeson faz o que pode para embalar a viagem, mas não impede que a estrada tenha mais solavancos do que deleites.



Talvez por indução do sobrenome, Richard Linklater gosta de retomar seus personagens mais tarde (link later). Isso aconteceu primeiro na série “Antes do…”, depois dentro de um único filme (“Boyhood”) e agora de maneira mais dissimulada entre “Jovens Loucos e Rebeldes” (1993) e JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (2016). Não são os mesmos jovens, mas há uma clara continuidade entre o último dia de escola em 1976 do primeiro filme e os três dias que antecedem a entrada na faculdade em 1980 do segundo. Há também a mesma concessão, o mesmo olhar afetuoso e não crítico às baboseiras dos estudantes texanos em suas paqueras, investidas de bullying e transgressões ingênuas.

Lembro que detestei o filme de 1993 tanto quanto admirei “Boyhood”. Linklater é capaz de me desconcertar para um lado e para o outro. Neste novo filme, ele volta a abusar da neutralidade da crônica, deixando de lado qualquer intenção dramática e sem de fato assumir a comédia. Os garotos são chatos de galocha e chapéu de caubói. Vivem numa realidade paralela onde não há lugar para conflitos nem sentimentos de verdade. Tudo para eles é referência, futilidade e competição. Às vezes dão a entender que têm consciência de sua vacuidade, virtude que o filme parece não compartilhar. Assim, apesar da atuação desenvolta do conjunto do elenco e de alguns momentos razoavelmente inspirados, achei tudo aquilo na borda do insuportável. Por ora, me desconectei de Linklater. May be we link later.

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