Na mira do Oscar: o absurdo e o comum

Sobre O LAGOSTA e MULHERES DO SÉCULO XX, indicados ao Oscar de roteiro original

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Ao longo dos milênios, as sociedades humanas decidiram que a forma ideal e produtiva de vida é o casal. Não necessariamente heterossexual, mas em pares. O LAGOSTA, candidato ao Oscar de roteiro original, leva esse princípio normativo às raias do absurdo.

Numa cidade-universo fictícia, é proibido ficar solteiro. Os recalcitrantes são levados para um “Hotel” campestre, internados sob um rígido regime de padronização e têm 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso contrário, serão transformados em animais da sua própria escolha. David (Colin Farrell) escolhe virar uma lagosta se não conseguir se safar a tempo.

Enquanto isso, na floresta perto dali, um grupo de guerrilheiros adeptos da solteirice impõe suas regras de maneira igualmente draconiana.

O tema da realidade torcida por uma norma ou uma danação da norma é comum à ficção de José Saramago e Victor Giudice (ver deste último o conto “O Hotel”, do livro “O Museu Darbot e Outros Mistérios”). Isso não impede que O LAGOSTA se afirme como uma criação de fato original do grego Yorgos Lanthimos, já indicado ao Oscar de língua estrangeira por “Kynodontas” (2011), também escrito em parceria com Efthymis Filippou. A história tem ingredientes e situações muito particulares, como a doutrinação dos hóspedes a respeito das virtudes da vida a dois, os estratagemas usados para fingir afinidade com um consorte potencial e o humor negro incutido nas práticas do hotel e da guerrilha.

A direção impõe ao elenco uma conduta corporal e verbal robotizada, o que pode gerar uma certa fadiga no decorrer do filme. Por outro lado, a vocação mais literária que audiovisual do roteiro sugere às vezes que tudo seria mais apreciável ainda sob a forma de um conto em que a visualização ficasse a cargo da nossa imaginação. Ainda assim, este é um raro filme “de Oscar” a que assistimos com verdadeira inquietação, carregados mais pelos atrevimentos da invenção do que pela conformidade a padrões de consumo.



O ano de 1979 pode não ter nenhum significado especial para a maioria de vocês. Muitos não tinham nem nascido. Foi mesmo um ano esquisito, com Figueiredo, Thatcher e Khomeini chegando ao poder, Carter deprimindo os americanos com seu discurso sobre a “crise de consciência” do país, Pink Floyd lançando “The Wall” e Cacá Diegues estreando “Bye Bye Brasil”. Terapia em grupo, fotos autobiográficas, franqueza sexual na mesa do jantar e discussões sobre o feminismo estavam na moda, enquanto o punk arrombava a porta do rock e cada um precisava se decidir entre Talking Heads e Sex Pistols.

MULHERES DO SÉCULO XX se passa ali naquele limbo histórico. Dorothea (Annette Bening) é uma mulher de 55 anos, ainda ligada em “Casablanca”, e que, mesmo sendo liberal, reage com cara de surpresa a tudo o que descobre em 79. Esta, aliás, é uma das poucas limitações à atuação cativante de Annette. Mãe solteira, Dorothea tem uma relação ora de cumplicidade, ora de confrontação com o filho de 15 anos (Lucas Jade Zumann). Para ajudá-lo a cruzar o pântano da adolescência, engaja duas jovens amigas (Elle Fanning e Greta Gerwick) na educação sentimental do garoto. Fica faltando somente saber como ajudar a si mesma.

Eis um filme que, embora trate o tempo todo de afeto, escapa às obviedades do romance. O que importa é mostrar como indivíduos malogrados e incompletos podem somar-se num arremedo de união e atravessar seus momentos mais difíceis. O roteiro original do diretor Mike Mills, indicado ao Oscar da categoria, se não oferece propriamente uma história, esmera-se na criação de episódios para uma crônica perpicaz e bem-humorada das sensibilidades no período. Os acontecimentos mais importantes estão no passado e no futuro, como deixa claro a casual e charmosa narração recíproca entre os personagens. Portanto, o que sobressai de verdade e pode nos falar de perto é a qualidade dos diálogos e a forma como os atores os dominam. Assim eles nos transportam para o feeling de uma época e os impasses de gente de carne e osso.

O lançamento no Brasil está previsto para 30 de março.

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