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Sobre SILÊNCIO, de Scorsese, e TANNA, do Pacífico Sul

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Como bom cristão, que semeia referências católicas em seus filmes, Martin Scorsese esculpiu SILÊNCIO como uma ode à pregação religiosa dos jesuítas no Japão do século XVII. Fez vista grossa para o fato de que os jesuítas eram pontas de lança da colonização europeia e, no caso do Japão, da cultura ocidental. A perseguição dos shoguns aos cristãos clandestinos é vista não como resistência, mas como fruto de intolerância e mesmo de sadismo. A brutalidade com que, de fato, os “cristãos escondidos” foram reprimidos e executados na época serviu como escusa para um certo proselitismo ocidentalizante.

Naturalmente, não sendo um ingênuo, Scorsese faz uso da complexidade com que o ficcional Padre Sebastião Rodrigues é descrito no romance homônimo de Shusako Endo. Aventurando-se na busca de outro padre desaparecido em Nagasaki, Rodrigues se revela um homem fraco, cheio de dúvidas sobre a presença de Deus e que age contraditoriamente diante dos fiéis massacrados porque ele se recusa a renegar sua fé. E ainda por cima, nutre a vaidade suprema de achar que se confunde com a imagem de Cristo. Bem, fazer de um desequilibrado o herói não é novidade para quem dirigiu “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “O Lobo de Wall Street”.

As maiores novidades aqui são o estilo austero, “silencioso”, e a ausência quase total de carisma, para o bem ou para o mal. Reparando com atenção, o filme se compõe de três ou quatro ciclos que se repetem, de maneira mecânica, cada um envolvendo o aprisionamento de Rodrigues, a sombra de uma traição à maneira de Judas, a coação de cristãos para que renunciem à fé, sessões de torturas e dilaceramento da consciência do padre. Andrew Garfield (que interpreta outra figura crística em “Até o Último Homem”) e Adam Driver, mas sobretudo o primeiro, estão longe de sugerir o ar da época e os dilemas dos últimos jesuítas em terra inimiga.

As imagens cálidas e os quadros amplos valeram ao fotógrafo Rodrigo Prieto a única indicação de SILENCE ao Oscar. De resto, é um Scorsese compenetrado mas enjoativo em seu distanciamento, no tempo e nas emoções. Um incômodo aspecto de elogio à colonização se reforça quando vemos humildes camponeses japoneses compreenderem e falarem o inglês (que seria originalmente o português). Teriam aprendido com a catequese ou estão sendo apenas canonizados por Hollywood?



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A Academia de Hollywood exagerou na condescendência étnica ao indicar o australiano TANNA para o Oscar de filme estrangeiro. Louve-se a iniciativa dos documentaristas Bentley Dean e Martin Butler de fazer uma ficção inteiramente interpretada por nativos da ilha vulcânica de Tanna, no Pacífico Sul, e falada no idioma vanuatu. A integridade e a ousadia do projeto, contudo, não renderam um bom filme.

Para variar, baseia-se numa história real, ocorrida naquela aldeia em 1987. Um “Romeu e Julieta” com sinais trocados. A jovem Wawa desafia os costumes de seu grupo, recusando-se ao casamento arranjado com um marido de outra tribo, e foge com seu amante da mesma tribo. Para evitar o conflito entre as duas nações envolvidas, os foragidos precisam ser localizados e a união desfeita. Numa das etapas de sua jornada, eles passam por uma bizarra comunidade de cristãos ocidentalizados, retratados como maníacos, num tipo de observação cujo sentido me escapou.

O argumento lembra o do hiperclássico “Tabu” (1931), ambientado na ilha próxima de Bora Bora. Mas as semelhanças param por aí. TANNA desdobra seu relato de maneira extremamente naïf, com algumas incursões ao kitsch romântico, atuações amadoras não necessariamente no bom sentido e uma trilha sonora de cantata New Age que implora pelo botão de muting. As mensagens de paz, perdão e compreensão do que seja o casamento por amor chegam através de cantos tribais e falas que almejam ser exemplares, mas soam apenas simplórias.

Embora possa ser antropologicamente incorreto apontar esse tipo de deficiência num filme de tal natureza, é preciso considerar que os nativos apenas colaboraram numa produção profissional do cinema australiano. O resto é complacência.