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A GAROTA DESCONHECIDA e A GRANDE MURALHA:
como os Irmãos Dardenne e Zhang Yimou falharam redondamente

Uma jovem médica deixa de atender a um chamado na porta da sua clínica e logo em seguida uma menina africana aparece morta no outro lado da rua. A GAROTA DESCONHECIDA se desenvolve a partir de um dilema sobre responsabilidade médica para falar de uma questão mais ampla, que é a má consciência branca europeia em relação aos imigrantes do Terceiro Mundo.

A Bélgica, como sabemos, é um dos países mais sensíveis a esse tema, dada a grande quantidade de imigrantes e refugiados. O regime das mutuelles (seguros-saúde) garantem atendimento igualitário a ricos e pobres nos mesmos hospitais. A Dra. Jenny Davin atende a imigrantes e pessoas humildes na cidade de Liège. O incidente com a menina negra vai alterar sua rotina e suas convicções, transformando a profissional teoricamente fria e competente numa espécie de boa samaritana.

A operação não poderia ser mais decepcionante em se tratando de um filme de Luc e Jean-Pierre Dardenne. Em lugar do complexo questionamento moral em que eles costumam colocar seus personagens, o que temos aqui é uma espiral de culpas e arrependimentos se sucedendo à exaustão. A médica assume o papel de detetive humanitária, visando não ao desvendamento de uma morte, mas à restituição de uma identidade à vítima sem nome e sem documentos. Um gesto de nobreza, sem dúvida, mas retratado como um processo de purgação sentimentalista que arrasta diversos personagens.

A performance alegadamente minimalista e muito elogiada da atriz Adèle Haenel me pareceu apenas sorumbática e inexpressiva. Coincidências banais como o contato da médica com uma irmã da vítima e cenas bisonhas como a discussão de Jenny com um paciente perto do final tornam quase irreconhecíveis as mãos dos Dardenne. É preciso admitir que os mestres do cinema, como os médicos, também erram.



A carreira do prodigioso Zhang Yimou tem oscilado entre os melodramas suntuosos e os épicos espalhafatosos. Nesse segundo setor, A GRANDE MURALHA é certamente o seu trabalho mais desapontador. Na versão de uma suposta lenda sobre a defesa da China nos limites da Muralha, em algum momento entre os séculos X e XII, dois mercenários europeus chegam em busca da recém-descoberta pólvora e acabam se engajando na luta dos chineses contra os devastadores monstros Tao Tie.

A grande questão é se o herói William (Matt Damon) vai optar pelos seus próprios interesses ou pelo compromisso de colocar sua inteligência ocidental a serviço dos orientais encurralados. Principalmente depois que estes passam a ser comandados por uma general gatinha. Afora isso, o que temos é uma sucessão infinda de batalhas contra os bicharões selvagens e diferentes estratégias bélicas medievais. Tecnicamente, a coisa é tão mirabolante que não precisa mais de meia hora para exaurir a nossa paciência.

Sem participar da criação do roteiro, Yimou parece estar dirigindo mais uma abertura de Olimpíadas com suas hordas marciais e a coreografia de arqueiros, guerreiros em bug jumping, catapultas, balões, bolas de fogo e explosões. Toda a clicheria visual e sonora dos filmes de ação marca presença, fazendo coro às poses ridículas e aos diálogos medíocres. A parceria entre China e Estados Unidos nessa caríssima produção é simbolizada pelo leve flerte entre William e a comandante Lin. A ausência de qualquer química ou verossimilhança histórica diz muito sobre o oportunismo e a cretinice de A GRANDE MURALHA.