Europeus (mais ou menos) animados

Sobre A TARTARUGA VERMELHA e MINHA VIDA DE ABOBRINHA

Em muitos aspectos, A TARTARUGA VERMELHA é um retorno ao básico em matéria de desenho animado. Nem uso aqui o termo “animação”, que hoje enfeixa um amplo leque de técnicas digitais. O longa do holandês Michael Dudok de Wit, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar (já conquistado pelo curta “Pai e Filha”), é puro desenho à mão. Como nos primórdios do gênero, dispensa completamente a palavra e executa sua magia à maneira das velhas lendas sobre a interação entre o homem e a natureza.

Retorno ao básico também das histórias de náufrago em ilha deserta, encontro amoroso, formação de família e cumprimento do ciclo inexorável da vida. É básico, ainda, na forma concisa como narra sua fábula e preenche os espaços visual e sonoro apenas com o essencial. Não dispensa, porém, a execução impecável de movimentos e a sugestão poderosa de emoções como o medo, o perigo, o encantamento e a despedida.

A produção desse filme pelos Estúdios Ghibli, em que pese o trabalho ter sido feito na França sob a direção de um holandês, desmente o boato de que a célebre empresa japonesa iria fechar suas portas. De qualquer forma, pode sinalizar uma mudança de rumos. Enquanto os filmes de Hayao Miyazaki e outros ghiblianos vinham ficando cada vez mais barulhentos e alvoroçados como os americanos, A TARTARUGA VERMELHA reata laços com a delicadeza e os apelos primordiais da animação.



MINHA VIDA DE ABOBRINHA é aquele tipo de animação desanimada que os europeus adoram. O filme do suíço Claude Barras ganhou o prêmio do público do Festival de Annecy com a historinha da passagem de um menino por um orfanato, enfrentando bullying e solidão, mas também sabendo aproveitar cada chance de colher afeto. Enquanto o brasileiro “O Menino e o Mundo” partia do sentimento de orfandade para uma descoberta estonteante da realidade, a Abobrinha suíça se volta para dentro, para as minúcias da cumplicidade e da ternura.

Mas que não se confunda “Ma Vie de Courgette” com “Ma Vie en Rose”. As crianças, com suas cabeças enormes e corpos de macarrão, têm o inferno como background familiar: alcoolismo, crimes, prisão, suicídio. O próprio Courgette admite que matou sua mãe. Ou seja, coisas que a Disney não assinaria de jeito nenhum.

O filme tenta fazer um balanço equilibrado entre infância infeliz e resgate afetivo. Procura injetar algum humor, sem grandes resultados. Acaba ficando mesmo como uma abobrinha: não faz mal a ninguém, mas não tem qualquer sabor especial.

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