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AQUARIUS está sendo lançado na Espanha (como “Doña Clara”) e a revista Caimán Cuadernos de Cine publicou em sua edição de março um dossiê sobre o cinema brasileiro a partir da perspectiva do filme de Kleber Mendonça Filho. Como a revista não está disponível online, publico aqui a versão original do artigo que escrevi especialmente para essa edição. 

Quando Aquarius foi exibido no Festival de Cannes, em maio do ano passado, o Brasil vivia a expectativa de um golpe de estado. Não um golpe militar e violento como o de 1964, mas um golpe urdido nas tramas de um Congresso corrupto, um poder judiciário partidarizado e uma imprensa empenhada em restaurar os privilégios de uma elite econômica da qual participa e é representante. A equipe do filme, liderada pelo diretor Kleber Mendonça Filho e a atriz Sonia Braga, fez ecoar no tapete vermelho o grito de resistência das forças democráticas brasileiras. Eles exibiram cartazes dizendo “Não ao golpe” e “O mundo não pode aceitar um governo ilegítimo”.

Esse foi talvez o mais visível internacionalmente de todos os protestos ocorridos desde que a ameaça de impeachment da presidente Dilma Roussef assomou no horizonte do país, em fins de 2015. Simbolicamente para o cinema brasileiro, foi bem mais que isso. O papel de Aquarius na cena político-cultural brasileira foi também a culminância de um processo de repolitização do cinema iniciado no ano de 2013.

Muitos viram na história da personagem Clara (Sonia Braga) uma metáfora – involuntária, claro – da própria situação de Dilma Roussef, resistindo bravamente aos poderes corporativos que desejavam despejá-la do lugar a que tinha direito pela força do voto popular. A cena final, protagonizada pelos cupins, sugeria um paralelo, igualmente involuntário, com a já célebre jornada de defesa de Dilma diante dos senadores, quando expôs claramente a verdade de um atentado à democracia que se utilizava de meios supostamente democráticos.

Mas os entreveros de Aquarius com a realidade política não pararam por aí. Por ocasião da escolha do representante brasileiro na disputa do Oscar de filme em língua estrangeira, já com o golpe consumado, a comissão instalada pelo novo Ministério da Cultura deixou de lado o óbvio favoritismo do filme de Kleber Mendonça Filho para escolher um drama ultraconvencional sobre adoção e morte infantil precoce. O Pequeno Segredo, de David Schurmann, como era de se prever, não arrancou nem a indicação ao Oscar, nem as lágrimas e o sucesso de bilheteria pretendidos. A preferência da comissão teve aroma de escândalo, já que um de seus membros, o crítico Marcos Petrucelli, havia condenado abertamente o posicionamento político da equipe de Aquarius. Embora houvesse certa diversidade na comissão, não faltaram indícios de que a opção final representava uma retaliação do governo ilegítimo ao filme indesejado. Em janeiro último, Aquarius foi indicado ao Prêmio César francês de melhor filme estrangeiro.

Dois meses depois do boicote para o Oscar, em novembro, Marcelo Calero, o Ministro da Cultura responsável pela formação da comissão, se demitiu do cargo acusando pressões do colega Geddel Vieira Lima, ministro muito próximo do presidente usurpador Michel Temer, para autorizar a construção irregular de um arranha-céu de luxo no qual ele havia adquirido um apartamento. Mais uma vez, Aquarius era convocado a dialogar com a política institucional, tanto pelo tema imobiliário, quanto pelo envolvimento do Ministério da Cultura.

Visão crítica das cidades

De alguma maneira, os cineastas de Pernambuco, estado natal de Kleber Mendonça Filho, já vinham fustigando os poderes estaduais e municipais na denúncia de administrações condescendentes com a especulação imobiliária desarvorada. Eles se opunham à transformação da cidade de Recife, capital de Pernambuco, em play ground de grandes empreendimentos que danificavam o ecossistema da cidade e penalizavam faixas mais pobres da população. O filme anterior de Mendonça Filho, O Som ao Redor, já tocava nesses temas ao tratar da paranoia por segurança em Recife. A visão crítica de uma classe média predatória e disposta a tudo para manter seus pequenos privilégios vinha sendo exercitada também por outros realizadores pernambucanos como Gabriel Mascaro (Um Lugar ao Sol, sobre moradores de apartamentos de cobertura) e Marcelo Pedroso (Pacific, montado a partir de vídeos de passageiros de um cruzeiro turístico).

Brasil S.A.

Pedroso levou esse assunto à esfera do filme-ensaio ficcional em Brasil S.A., que pretendia nada menos do que oferecer uma leitura crítica do modelo de desenvolvimento adotado pelo país. Sem qualquer manifestação verbal, utilizando apenas imagens com a estética da propaganda e da publicidade, o filme combina um discurso nacional de longo prazo (a substituição do rural pelo industrial, do homem pela máquina) com o ativismo atual contra a privatização e a verticalização dos espaços urbanos. Estão na mira, entre outros alvos, o orgulho e a vaidade de um “Brasil grande” que até há pouco se perpetuava no tempo como sintoma independente, a terceirização da vida por uma classe média indolente e consumista, o ocultamento da realidade pelo nacionalismo e o entorpecimento das vontades através da religião.

O Rio de Janeiro, sede de uma Copa do Mundo (2014), uma comemoração de 450 anos (2015) e uma edição das Olimpíadas (2016), forneceu motivos de sobra para a retomada do cinema político. As fortes reações de parte da população aos gastos com esses eventos, em tempos de crise econômica e denúncias de corrupção, foram canalizadas através de diversos filmes, documentários e ficções, de variada metragem. Cabe destacar pelo menos dois.

O Prefeito

O Prefeito, de Bruno Safadi, é uma sátira ácida em que o alcaide do Rio transfere seu gabinete para os escombros de um imenso viaduto em processo de demolição. Em sua sanha modernizadora, ele resolve promover a separação do Rio do resto do país. Já Olympia, de Rodrigo MacNiven combina documentário e ficção alegórica para falar de um Rio de Janeiro que demolia casas e removia famílias para abrir espaço para os Jogos Olímpicos. Para além das questões regionais, esse filme faz uma análise razoavelmente vertical de uma pauta ampla que inclui a dinâmica dos grupos de poder no Brasil, a tomada do estado pelo mercado, a deturpação do conceito de cidade pela ênfase na segurança e na segmentação de classes, a corrupção do Judiciário e os limites da democracia representativa tal como a vivemos hoje.  

Não se pode, naturalmente, menosprezar a dimensão política de muitos filmes das novas gerações de cineastas de várias regiões do país. Embora tratados com frequência por uma via individual ou de grupos de afeto, estão presentes assuntos como respeito à diversidade étnica, racial e sexual; direito ao aborto; bioética; militância política não partidária, etc. Da mesma forma, o cinema voltado para questões de ecologia e sustentabilidade tem sido um braço bastante ativo dessa repolitização da cena cinematográfica.

No entanto, um embate mais direto dos filmes com a atualidade política é algo que havia ficado em segundo plano por pelo menos três décadas no Brasil. Desde que os eflúvios críticos e revolucionários do Cinema Novo foram ultrapassados, em fins dos anos 1970, os filmes de ficção aplicaram-se na renovação estética e na busca do sucesso comercial, quando não na simples sobrevivência, como no período em que Fernando Collor de Mello ocupou a presidência. Os documentários, por sua vez, trocaram o viés sociológico dos anos 1960 e 70 por um olhar mais antropológico para as individualidades, olhar esse em muito inspirado nas experiências seminais de Eduardo Coutinho com o chamado cinema de encontro.

A ditadura no retrovisor

A pauta eminentemente política, com raras exceções, ficou restrita a filmes de retrospecto histórico. Os anos da ditadura civil-militar (1964-1985) foram um constante cenário para investigações documentais e recriações ficcionais. Ainda recentemente, a diretora Tata Amaral nos brindou com dois exemplos inventivos desse retorno aos “anos de chumbo”. Em Hoje, uma mulher se defronta com o fantasma do marido, ativista morto pelos militares, que questiona os benefícios recebidos por ela em função da sua morte. Os dois tempos passam a conviver dentro do apartamento. O súbito e inesperado “retorno” da protagonista ao tempo de juventude reacende não apenas as tensões da clandestinidade e a consciência de um episódio trágico, mas também uma sensualidade que talvez andasse adormecida ultimamente. Em Trago Comigo, temos um diretor de teatro assombrado pela memória do medo e de um amor que teve nos tempos em que era militante clandestino.

A Noite Escura da Alma

A Noite Escura da Alma

Trago Comigo inclui um documentário-dentro-da-ficção, no qual ex-ativistas relatam suas experiências com a clandestinidade e a tortura. Memórias dessa natureza também são trazidas à tela nos documentários A Noite Escura da Alma, de Henrique Dantas, e Galeria F, de Emilia Silveira. Nos últimos cinco anos, o reexame dos tempos ditatoriais teve lugar, ainda, em Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, sobre os anos de exílio do ex-presidente João Goulart e as circunstâncias de sua morte; Em Busca de Iara, de Flávio Frederico, biografia da guerrilheira Iara Iavelberg; e Retratos de Identificação, de Anita Leandro, que enfoca sobreviventes da resistência se confrontando com fotografias feitas pela polícia durante a prisão e sessões de tortura.

Alguns filmes sobre o tema partiram de motivações familiares, incorporando esse caráter em maior ou menor grau a suas formas de abordagem. Flávia Castro vasculhou a história de sua família – especialmente do seu pai, um ex-militante comunista – no penetrante e muito influente Diário de uma Busca. O biográfico Marighella foi dirigido pela sobrinha do guerrilheiro Carlos Marighella, Isa Grinspum Ferraz. O Dia que Durou 21 Anos, sobre as intervenções do governo americano para derrubar o governo João Goulart, foi assinado por Camilo Tavares, filho do jornalista Flávio Tavares, militante da oposição aos militares. Duas ex-presas políticas também realizaram documentários sobre esse capítulo da história brasileira: Lúcia Murat incorporou performances de um ator à evocação da trajetória do seu irmão em Uma Longa Viagem (2011), ao passo que Emilia Silveira recontou, em Setenta (2013), o exílio dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço sequestrado em 1970.

O veterano documentarista Silvio Tendler, responsável por alguns dos maiores sucessos do gênero nos anos 1980 (Os Anos JK e Jango), manteve-se ativo nos anos recentes e apresentou duas revisões de aspectos negligenciados do período ditatorial: Militares da Democracia recupera as memórias de militares que se opuseram ao regime instaurado pelo golpe de 1964, enquanto Os Advogados Contra a Ditadura enfoca juristas que defenderam presos políticos e participaram ativamente da resistência.

O Mercado de Notícias

O Mercado de Notícias

Outros realizadores de larga experiência também contribuíram para esse panorama de repolitização. Um deles foi Jorge Furtado com O Mercado de Notícias, análise autocrítica da imprensa brasileira feita por jornalistas famosos e montada em paralelo a cenas de uma sátira teatral do século XVII. Outro foi Murilo Salles, que em O Fim e os Meios narrou a história de um casal – ela jornalista, ele publicitário – envolvido nas tramas da corrupção na capital federal. O filme ecoava, a nível da vida doméstica, a grande crise ética e política que o país vivia a partir de 2013.

Tela em transe

Em junho de 2013, uma onda de controvertidos protestos tomou o país e foi logo cooptada pela direita alijada do poder nos 11 anos anteriores. Para muitos, foi o ovo da serpente que resultaria no golpe de 2016. Esses acontecimentos, junto com os debates acalorados que a campanha eleitoral de 2014 suscitou, levou ao surgimento de uma leva de documentários altamente críticos e propositivos sobre a realidade política imediata. Em sua quase totalidade, realizados por jovens e coletivos de cinema.

O material captado pelo midiativismo nas ruas gerou diretamente os documentários Rio em Chamas, realização coletiva do Rio de Janeiro que procurava interpretar os fatos de maneira engajada; Vinte Centavos, de Tiago Tambelli, cuja proposta era reunir registros sem interpretá-los; Sem Partido, do coletivo Verso de Pé Quebrado, que tinha o intuito de discutir a representação política institucionalizada pelos partidos; É Tudo Mentira, do coletivo ¡No Pasarán!, que enfocava a guerra midiática em torno dos protestos com uma visão assumidamente anarquista; e Vozerio, de Vladimir Seixas, painel de vozes rebeladas contra o sistema financeiro, a democracia representativa, o estado policial e a lógica burguesa. Por sua vez, Junho: o Mês que Abalou o Brasil, de João Wainer, produzido por um grande jornal de São Paulo, buscava uma cobertura supostamente jornalística dos eventos. Ressurgentes: um Filme de Ação Direta, de Dácia Ibiapina, fez a crônica do pensamento político e das ações de um grupo de militantes autônomos de Brasília entre os anos de 2005 e 2013.

Jovens Infelizes...

Jovens Infelizes…

A inquietação e o engajamento dos jovens ganhou uma síntese provocativa e vibrante no ficcional Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita não É um Urso que Dança, de Thiago B. Mendonça. No filme, uma pequena comunidade de artistas-militantes habita um exíguo apartamento em São Paulo, onde fazem tudo coletivamente, da discussão de questões públicas e privadas à intensa atividade sexual. Mendonça e sua trupe põem em cena um espectro amplo de insatisfações, fúrias e contradições dos jovens numa era em que as esquerdas não parecem mais impedir a escalada do capital. A iconoclastia religiosa, as performances irreverentes na rua e a inserção dos personagens nos protestos contra a Copa do Mundo de 2014 são estratégias usadas para encenar o enfrentamento de um estado de coisas sintetizado na frase pichada em um muro: “Está tudo uma merda”.

Durante o período de desestabilização do governo Dilma pelas forças da direita, entre 2013 e 2016, os cineastas fizeram um intenso escrutínio das batalhas travadas no Congresso Nacional e nas ruas do país. Em fevereiro de 2016 encontravam-se em fase de finalização pelo menos sete filmes, dirigidos pelas realizadoras Petra Costa, Anna Muylaert, Julia Murat, Maria Augusta Ramos e Paula Fabiana, além do diretor Douglas Duarte. O comportamento do Congresso foi também finamente observado através das relações do deputado progressista gay Jean Wyllys com seus colegas conservadores em Entre os Homens de Bem, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. Por sua vez, a afluência da cultura do ódio no estado de São Paulo foi retratada no documentário paulista Intolerância.doc, de Susanna Lira.

O cinema não deixou, contudo, de refletir as importantes transformações sociais dos governos Lula-Dilma. Família Braz: Dois Tempos, de Arthur Fontes e Dorrit Harazin, e Aqui Deste Lugar, de Sérgio Machado e Fernando Coimbra, evidenciaram exemplos de melhoria de vida de pessoas humildes mediante o acesso ao consumo e aos benefícios do programa governamental Bolsa Família. Caminho do Meio, de Julia Martins, radiografou a situação de cinco famílias da chamada nova classe média dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Um dos maiores sucessos do cinema brasileiro recente também se referia nas entrelinhas à nova consciência das classes trabalhadoras forjada pelos governos do PT. Era Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, história de um choque de gerações e de autopercepção social entre uma empregada doméstica e sua filha que não aceita o papel submisso e o horizonte limitado da mãe. Em poucos filmes brasileiros recentes a política se refletiu tão bem no cotidiano popular.

No recente Festival de Berlim, João Moreira Salles estreou seu novo documentário, intitulado No Intenso Agora. Este é o filme mais político do diretor de Santiago, Entreatos e Nelson Freire. Trata-se de um filme-ensaio, reflexão um tanto melancólica a respeito da natureza e do conteúdo emocional de imagens produzidas na vigência de três grandes eventos dos anos 1960: a Revolução Cultural chinesa, vislumbrada nas filmagens de um passeio turístico da mãe do cineasta, uma grande dama da burguesia financeira brasileira, em 1966; o entusiasmo, os impasses e por fim o fracasso do movimento estudantil de maio de 1968 em Paris; e o esmagamento da Primavera de Praga pelos tanques soviéticos em agosto de 1968. O Brasil quase não está na tela deste filme, mas pode ser entrevisto como um paralelo longínquo.