Foucault, Saraceni

Em cartaz no Rio, o documentário FOUCAULT CONTRA SI MESMO.
Aguardando oportunidade de exibição, SAUDADE, um média-metragem com as cartas para Paulo César Saraceni em Roma

De livro em livro, Michel Foucault expandiu seu campo de pesquisa, refinou seu pensamento, afrontou instituições e eventualmente se contradisse. “Pensar é dissociar-se de si mesmo”, dizia. Parte daí a abordagem do documentário FOUCAULT CONTRA SI MESMO, de François Caillat, em cartaz nos cines Joia, Arte UFF e Star Laura Alvim. Meia dúzia de pensadores e historiadores comentam a trajetória do autor de “Vigiar e Punir”, destacando sua análise dos macro e micropoderes sobre os sujeitos desviantes, sua militância política, o envolvimento com a comunidade gay norte-americana e a construção do seu “saber non-standard”, na expressão de Didi-Huberman.

Uns poucos extratos de entrevistas de Foucault o colocam diretamente dentro do filme, que tem concisos 53 minutos e passa em revista as ideias centrais do filósofo. Uma de suas falas ilumina particularmente a essência do seu trabalho: ele se diz interessado na história das problematizações. Ou seja, quando e como um assunto se torna um problema para a sociedade, seja a loucura, o sistema penitenciário ou a sexualidade não convencional.

Como cenário das entrevistas, o grande salão da Biblioteca Nacional da França não podia ser mais institucional para se falar de um homem que adentrou as instituições para questioná-las. Mais uma contradição…



SAUDADE, média-metragem realizado por Renata Saraceni, põe em cena uma ideia simples e bonita. Para dramatizar as cartas enviadas pela família a seu tio Paulo César Saraceni quando ele estudava cinema em Roma, em 1960, Renata não usou subterfúgios. Chamou quatro atores para falar ou ler as cartas da mãe de Paulo, do pai, da irmã e do irmão. Eles fornecem o calor de suas vozes e de suas inflexões (e às vezes de sua expressão corporal) para comunicar o carinho e as preocupações com o moço desgarrado em busca do seu sonho. A preocupação da mãe com o frio europeu, a excitação das notícias sobre o sucesso de “Arraial do Cabo”, as queixas sobre eventuais silêncios postais, tudo isso vai formando uma rede de ternura muito agradável de se ouvir.

Além da especificidade dos Saraceni, as cartas nos fazem mergulhar nas circunstâncias da comunicação daquela época. Os tempos eram enormes, as respostas lentíssimas, as distâncias pareciam incomensuráveis. É assim que SAUDADE nos transporta para duas espécies em extinção: o sentimento da espera e o prazer de esculpir com vagar e cuidado uma carta capaz de tocar o coração do ente querido.

3 comentários sobre “Foucault, Saraceni

  1. Você poderia apontar as contradições em Foucault ? Um caminho para percebê-las? Como situar isto? Leio seus comentários e gosto muito. Grata.Heloisa.

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