Como se filmava depois de Stálin

Mostra Nouvelle Vague Soviética apresenta no Rio clássicos e pérolas pouco conhecidas do período entre Stálin e a Perestroika
(Artigo publicado originalmente na Carta Maior)

A Sombra dos Antepassados Esquecidos

Começa hoje na Caixa Cultural (Rio) a Mostra Nouvelle Vague Soviética, trazendo 20 filmes produzidos entre 1957 e 1986. Período que se caracteriza pela desestalinização da URSS, compreendido entre a morte de Stálin (1953) e o advento da Glasnost (transparência) e da Perestroika (reestruturação). Foi uma época de grande efervescência criativa no cinema soviético, quando cineastas veteranos encontraram maior liberdade para avançar nos seus temas e novos diretores surgiram na paisagem.

“Tentamos fazer um panorama que ao mesmo tempo exponha o momento histórico e nos revele a singularidade artística destes realizadores, eventualmente trazendo também para a mostra o que julgamos ser os seus melhores filmes”, conta Pedro Henrique Ferreira, curador do evento junto com Thiago Brito.

A Comissária

A sessão de abertura apresenta um caso ilustrativo dos avanços e limitações dessa Nouvelle Vague. A Comissária foi realizado em 1967, mas os censores o engavetaram por 20 anos, acusando o diretor Alexander Askoldov de questionar o heroísmo da revolução e colocar questões individuais acima das coletivas. Não declaradamente, reprovava-se também a forma simpática com que era retratada uma família judia (o antissemitismo grassava durante o período stalinista e mesmo depois). Askoldov foi banido do cinema e do Partido Comunista. Só em 1987, já sob a égide de Gorbachev, o filme seria redescoberto, num episódio do qual participei modestamente e que conto no final da matéria.

NUMA COINCIDÊNCIA MUITO TRISTE, ALEXANDER ASKOLDOV FALECEU ONTEM, 21 DE MAIO, AOS 86 ANOS, NA VÉSPERA DA ABERTURA DA MOSTRA COM O SEU FILME. 

Ambientado na Ucrânia, A Comissária trata de uma oficial do Exército Vermelho que, com gravidez avançada durante a guerra civil de 1918-1922, refugia-se na casa da pobre família judia Magazannik. A conversão de soldada em mãe é mostrada de um ponto de vista humanista, anti-épico, embora ao final o dever revolucionário acabe falando mais alto. Askoldov foi forçado a fazer mudanças no roteiro para atender à censura, que mesmo assim condenou o filme ao ostracismo. Komissar acabou se tornando um marco da Perestroika, não só pela liberação, mas também pela qualidade fílmica do que foi revelado.

Andrei Roublev

A programação da mostra abrange alguns clássicos bem conhecidos dos cinéfilos mais experimentados, como o insuperável Andrei Roublev, de Andrei Tarkovski, biografia poética do pintor de ícones do século XV, filme igualmente perseguido pelas autoridades soviéticas nos anos 1960. De Tarkovski se verá também a aventura metafísica Stalker, na qual um escritor e um cientista são conduzidos através de uma paisagem pós-apocalíptica até um núcleo onde supostamente todos os desejos mais profundos poderiam ser concretizados.

Dois clássicos dos anos 1950 darão as caras: Quando Voam as Cegonhas, de Mikhail Kalatozov, e A Balada do Soldado, de Grigory Chukhrai, duas histórias em que os sentimentos humanos (o amor romântico e o desvelo filial) sobrevivem aos horrores da 2ª Guerra Mundial. Aquele conflito ganhou de Elem Klimov, em Vá e Veja, uma de suas visões mais estarrecedoras através do ponto de vista de um menino perambulando pela Bielorrússia  arrasada depois da invasão nazista. Este talvez seja o maior filme de guerra já feito, juntamente com Apocalipse Now, de Coppola. Kalatozov, aliás, está na mostra também com o esteticamente esplendoroso Soy Cuba, misto de documentário e ficção sobre a transição da ilha entre os tempos de Batista e os de Fidel.

Vá e Veja

Entre os diretores mais conhecidos estão o russo Alexei German e o inefável armênio Serguei Paradjanov. German vem com Meu Amigo Ivan Lapshin, perfil de um investigador criminal que ficou censurado durante 14 anos por captar a pobreza e as confusões de um período sombrio; e Difícil ser um Deus, exercício de ficção científica que o diretor iniciou em 1968 e só pôde concluir em 2013, ano de sua morte. Paradjanov, por sua vez, comparece com o deslumbrante A Sombra dos Antepassados Esquecidos (lançado no Brasil como Cavalos de Fogo), uma espécie de Romeu e Julieta situado em famílias rivais dos Montes Cárpatos.

Os irmãos Nikita Mikhalkov e Andrei Konchalovsky estão na mostra com dois filmes cada um. Nikita, com A Escrava do Amor (história metalinguística sobre uma filmagem realizada nos anos 1920 em cidade ocupada pelo Exército Branco) e Cinco Tardes, que narra o reencontro de um casal separado pela 2ª Guerra. Andrei Konchalovsky está representado por sua sóbria e intrincada versão de Tio Vânia, de Tchekov, e seu primeiro longa, o raro O Primeiro Professor (1965), em que um educador é enviado pelo Partido a uma pequena aldeia perto da fronteira com a China e enfrenta o desinteresse dos moradores.

O Primeiro Professor

A mostra inclui filmes de diretores menos conhecidos por aqui, mas igualmente importantes para esse cenário de descompressão do cinema soviético. Eles são Larissa Shepitko, aluna de Dovjenko e colaboradora de Klimov (depois casou-se com ele); Gleb Panfilov, um dos grandes cultores dos épicos históricos russos; Mikhail Romm, cineasta e teórico que influenciou toda essa geração aqui contemplada; e o georgiano Marlen Khutsiev, autor da obra-prima Tenho Vinte Anos e de um elogiadíssimo retrato de Moscou nos anos 1960, Chuva de Julho, ambos incluídos na mostra.

Confira aqui a programação completa do evento, que inclui um debate e um curso com o pesquisador Hernani Heffner.

Eu e A Comissária

A edição de 1987 do Festival de Moscou foi histórica. O clima da Perestroika contagiava russos e estrangeiros com descobertas e descompressões. Todos estavam curiosos sobre os rumos que o país e o seu cinema tomavam naquele momento. A oficialidade soviética ostentava a bandeira da liberação. Vários filmes haviam sido retirados das gavetas da censura.

Eu estava no festival como integrante do júri da crítica internacional (Fipresci). Numa reunião informal com funcionários da embaixada brasileira em Moscou, fiquei sabendo que A Comissária era talvez o único longa-metragem que permanecia interditado. Eu prometi tocar no assunto no dia seguinte, quando haveria uma entrevista coletiva com o cineasta Elem Klimov, então presidente da União dos Cineastas.

Alexander Askoldov no momento do seu protesto. Foto: Carlos Alberto Mattos

Sem que eu soubesse, o pessoal da embaixada avisou a Alexander Askoldov, diretor do filme, que compareceu discretamente à coletiva na Domkino (Casa do Cinema). Eu me inscrevi para uma pergunta e questionei Klimov sobre a amplitude da liberação de filmes, mencionando que sabia da existência de pelo menos um longa-metragem que continuava censurado. Klimov começou a responder, garantindo que não havia mais nada nas gavetas. Foi quando, para surpresa minha e geral, Askoldov saltou da cadeira, tomou o microfone e iniciou um protesto em defesa do seu filme.

A partir daí, este virou o grande assunto do festival. Os jornalistas presentes exigiram da Domkino uma exibição de A Comissária, o que foi feito três dias depois, com grande solenidade.

Eu sequer conversei com Askoldov na ocasião. Mas em Berlim, no ano seguinte, quando o filme conquistou o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio da Crítica, o diretor contou o episódio ao crítico brasileiro José Carlos Avellar, que revelou o caso em artigo do Jornal do Brasil. Num exagero de reconhecimento, Askoldov creditava a mim a liberação do seu filme.

No Festival do Rio de 1988 ele veio ao Brasil para acompanhar a exibição do filme e, enfim, pudemos nos encontrar e nos abraçar. Mais uma vez, não conversamos, pois ele não falava outra língua que não o russo.

Matéria no Jornal do Brasil

5 comentários sobre “Como se filmava depois de Stálin

  1. Estes episódios revelam a relação quase científica entre a cinematografia mundial, na mesma linha em que uma pesquisa estimula outra, e assim sucessivamente.

  2. Oi, Carlinhos, tudo bem? Estou procurando e não acho. Você continua coletando e publicando as memórias do Luiz Rosemberg Filho?

    Abraços,

    Clovis Molinari

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