Cabeças pensantes

A série ALEGORIAS DO BRASIL e o documentário IDIOMA DESCONHECIDO trazem cabeças falantes pensando sobre abstrações muito concretas 

O Canal Curta! inicia amanhã – e prossegue toda quinta às 23h30 – a série ALEGORIAS DO BRASIL. É o primeiro projeto de Murilo Salles concebido especialmente para a TV, em parceria com Pedro Duarte. Nada mais simples e direto: cabeças falantes – melhor seria dizer cabeças pensantes – explicando o Brasil pela via das ideias motrizes que se faz do país, as alegorias. Em cada um dos 13 episódios, historiadores em sua maioria, mas também filósofos, sociólogos, antropólogos, escritores e economistas dão aulas polifônicas sobre recortes específicos.

Tive a oportunidade de ver os três primeiros episódios. Já no primeiro, “Identidade e Natureza”, pude perceber a busca de uma representatividade pouco vista quando se trata de reunir intelectuais. Temos, então, brancos, pretos, índios e imigrados discorrendo sobre o papel da Natureza na cultura brasileira, os nossos mitos identitários (como o do Paraíso na terra) e a rarefação do conhecimento político que vem da nossa formação histórica. Fausto Fawcett tem uma das melhores definições: “O Brasil é uma localidade de ficção científica trash“.

O segundo episódio, intitulado “O Viro do Ipiranga”, ocupa-se das origens da nossa viração, do jeitinho que sempre conviveu com a tradição autoritária, o coronelismo e a burocracia. Até a nossa independência foi por acomodação de interesses entre o Brasil e Portugal. No terceiro, “O Estado Sou Eu”, fala-se da proverbial confusão entre o público e o privado, da lógica do clientelismo e do sequestro do estado pelas elites privadas. É onde, até aqui, a análise histórica mais se aproximou da realidade atual, dominada pelo neoliberalismo, o rentismo e a pauta privatista. Faz-se a crítica do Patrimonialismo, onde, naturalmente, não poderia faltar Jessé de Souza com sua visão questionadora do próprio status quo sociológico: “A elite poderosa não está no estado, mas nos oligopólios e atravessadores financeiros que se apropriam do estado”.

Sintética sem ser ligeira, e didática sem ser maçante, a série promete ser uma lufada de inteligência e uma oportuna ferramenta para se pensar o Brasil em uma das piores encruzilhadas de sua história.



O inconsciente é um mar profundo que só costuma ser desbravado por mergulhadores da psicanálise. Mas é possível investigar os efeitos que podem vir à tona no mundo social. É o que procura fazer o documentário IDIOMA DESCONHECIDO, de José Marques de Carvalho Jr., recentemente disponibilizado no Youtube. Nele são entrevistadas 15 pessoas, entre psicanalistas, artistas, ativistas, religiosos e vendedores de rua.

O conjunto de testemunhos e reflexões dessa gente aborda os preconceitos, atitudes e impulsos vitais que gerem nossa vida por motivos que nem sempre afloram no nível da consciência. Daí falar-se em inconsciente individual e coletivo, superação de complexos, mecanismos de manipulação e subjugação social e política. Gregório Duvivier, Otto, Marcelo Yuka, Lourenço Mutarelli e Nabby Clifford, o “Embaixador do Reggae”, têm algumas das participações mais interessantes numa discussão que se alastra para muitas latitudes, incluindo o papel do inconsciente na criação artística.

A partir de certo ponto, o tema central dá lugar a um questionamento (nada novo, aliás) da sociedade de consumo, da ideologia da satisfação pessoal e das “verdades” vendidas por jornais, livros, publicidade e opiniões. O cinema como alimento do inconsciente também merece rápida atenção. A massa de fala crítica ganha respiros pontuais com imagens pregnantes do mar e de situações urbanas, convidando o espectador a buscar sentidos talvez no seu próprio inconsciente.

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