O que expõe a Vaza Jato

A essa altura já está bem claro que o endeusamento da Lava Jato como cruzada contra a corrupção e, depois, como cavalo de batalha contra a esquerda brasileira, subiu à cabeça de Moro, Dallagnol e companhia. Eles se julgaram acima da lei a ponto de driblarem a ética e ferirem a Constituição seguidamente, como já se sabia pelos desmandos do processo e agora fica provado pelas conversas sórdidas reveladas na Vaza Jato.

Mas a pergunta que cabe fazer nesse momento é: qual a extensão desses vazamentos para o sistema judiciário brasileiro como um todo?

Dada a importância do sigilo nos processos de investigação e julgamento, o poder judiciário é o menos sujeito às exigências de transparência. Quase tudo se dá a portas fechadas, numa esfera superprotegida, acessível por poucos. Os autos são apenas a face visível do que se passa nas comunicações pessoais, que, ao fim e ao cabo, decidem o destino dos réus.

Não é nenhuma fantasia mirabolante imaginar que os mesmos tipos de agressão à imparcialidade, conluios ilegais e usos ilícitos da autoridade judiciária, que nos escandalizam nas revelações da Vaza Jato, sejam corriqueiros nos bastidores das relações entre procuradores, desembargadores, juízes e mesmo ministros do STF. Quantos deles colocariam seus celulares de trabalho à disposição de uma investigação independente?

É praxe também que autoridades judiciárias monetizem seu status por meio de palestras, cursos, fundações, institutos, etc. Nessa seara, a linha que separa o trabalho digno do oportunismo e mesmo da corrupção pode ser bastante tênue, como vimos nas tratativas de Dallagnol com a esposa-laranja e o Beach Park.

Fato é que os vazamentos de The Intercept lançam uma sombra de suspeita sobre os métodos privados desses agentes públicos, abrindo uma janela inédita sobre a conduta de um dos poderes da República. Não somente os próceres da Lava Jato, mas muitos mais devem estar reconhecendo ali suas práticas e se sentindo nus.

O momento, portanto, é de enorme tensão. A tendência das instâncias superiores é abafar, minimizar e legitimar o que for possível, num movimento que não é só de corporativismo, mas é também de autoproteção.

O país tem duas opções diante desse impasse: ou rasga-se o peito numa punição exemplar dos atropeladores das leis, ou assume de uma vez por todas o papel de republiqueta supremamente tirânica.

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