Mostra de SP: Passagens

Cine São Paunambuco

Lúcia Nagib e Samuel Paiva são professores universitários profundamente interessados na história do cinema brasileiro contemporâneo. Ela, radicada na Inglaterra, na Universidade de Reading; ele, na Universidade Federal de São Carlos (SP). Juntos, assinam PASSAGENS, um misto de documentário de entrevistas e filme-ensaio sobre um certo filão do cinema da Retomada, objeto de um livro de Lúcia.

Com curiosidade intelectual, mas não exageradamente acadêmica, eles se debruçaram sobre filmes de ponta da produção pernambucana e da paulista das décadas de 1990 a 2010 em busca de traços de intermidialidade – ou seja, o diálogo que o cinema estabelece com a música, as artes plásticas, o teatro, a literatura, a poesia e a fotografia. Essas outras mídias, segundo os autores, abririam “passagens” para a realidade social, histórica e política do país.

Essa ideia talvez fique mais como proposta, como indagação, do que propriamente como demonstração a partir dos filmes. De qualquer maneira, o painel desdobrado em cenas e reflexões de diretores, roteirista, montadora, músico e produtor de filmes como Amarelo Manga, Árido Movie, Baile Perfumado, Tatuagem, Crime Delicado, O Céu de Estrelas, O Som ao Redor, A Febre do Rato, Trago Comigo, O Invasor, Tatuagem, Cinema Aspirinas e Urubus, Amor Plástico e Barulho e Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo não deixa de ser, em muitos aspectos, revelador. Os exemplos destacados comprovam uma permeablidade de linguagens e estéticas que certamente não encontramos na produção de outras regiões.

A miscigenação de documentário e ficção, a presença do road movie, a importância fulcral do manguebeat no renascimento do cinema de Pernambuco e uma revalorização da paisagem e da identidade das periferias de Recife e São Paulo aparecem como ingredientes fundamentais desse cinema. O trânsito (de artistas e estéticas) entre os dois estados é, de fato, elemento determinante numa antropologia da arte brasileira contemporânea, e não só do cinema. Fernando Meirelles, com Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira, desponta como única exceção de cenário.

PASSAGENS chega como um estudo importante para fixação de um estado de coisas que já pode se dizer “de época”. O cinema brasileiro está hoje menos preocupado com sua reinvenção e mais ocupado com o confronto, a resistência e a sobrevivência. Resta saber como as outras artes e mídias podem ajudar nessa travessia.

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