Mostra de SP: O Paradoxo da Democracia

A democracia é suicida?

A democracia tem sido posta à prova em várias partes do mundo nos últimos anos. O novo documentário de Belisario Franca (Menino 23, Soldados do Araguaia) faz um esforço para tentar compreender o que se passa. O PARADOXO DA DEMOCRACIA reúne cenas de manifestações de rua em diversos países entre 2011 e 2019, junto a análises de conjuntura por cerca de uma dezena de pensadores brasileiros e europeus de diferentes matizes ideológicos.

Da Primavera Árabe aos conflitos na Ucrânia e às manifestações em Hong Kong, dos movimentos Occupy nos EUA ao Brexit na Inglaterra e às refregas na Venezuela de Maduro, do golpe lavajatista no Brasil aos coletes amarelos na França e ao movimento M-15 espanhol, o que temos visto é um inédito questionamento sobre a capacidade do sistema democrático de sustentar a si mesmo.

O filósofo francês Jacques Rancière nos lembra que democracia, na sua raiz grega, não era sinônimo de representatividade, mas de escolha por sorteio. Se todos eram iguais perante a lei, então qualquer um poderia ser eleito para governar. A democracia representativa está agora sob fogo numa crise de legitimidade dos políticos e da própria ideia de verdade em tempos de exacerbação das fake news e capilarização das redes sociais.

Como a democracia pode levar à sua própria morte – é o que se pergunta. Quais são as estratégias, a retórica e a estética do neofascismo contemporâneo? Como a direita anda instrumentalizando a esquerda para votar nela e evitar a extrema-direita (o caso Macron)? É mesmo possível uma convivência entre democracia e capitalismo?

São muitas as questões abordadas em raciocínios sintéticos, que, apesar do brilho ocasional, não chegam a formar um pensamento mais definido. Até mesmo porque o filme não parece interessado em se posicionar, mas somente em alinhar inquietações. A tela recortada nos depoimentos radicaliza a ideia das “cabeças falantes” (seria melhor dizer pensantes) – e é particularmente admirável o que tem a dizer Juan Carlos Monedero, cientista político e um dos ideólogos do partido Podemos espanhol.

Talvez nada sintetize melhor todos os paradoxos a que a democracia está exposta do que a imagem de um homem pregando a Bíblia em meio a uma carga policial contra manifestantes brasileiros em 2013. Mais que de um filme, ainda vamos precisar de muitos livros para entender o que se passa na política de hoje.

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